Candidatos à presidência do Egito discordam sobre papel do Islã

Mohamed Morsi, mais conservador, e Abdel Moneim Aboul Fotouh, mais liberal, disputam eleitores egípcios

The New York Times |

Ele é a favor da restrição contra mulheres e não-muçulmanos na presidência do Egito com base na lei islâmica, a Sharia. Ele pediu um conselho de sábios muçulmanos para o Parlamento. Ele tem um histórico de declarações inflamadas a respeito de Israel, tendo chegado a chamar seus cidadãos de "assassinos e vampiros."

Mohamed Morsi também é o candidato favorito nas eleições presidenciais do país.

Morsi, da Irmandade Muçulmana, grupo islâmico que domina o panorama político do Egito, declarou na semana passada que a plataforma de seu partido equivalia a uma destilação do próprio Islã.

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NYT
Mohamed Morsi, candidato da Irmandade Muçulmana à presidência do Egito, faz campanha em Damanhour (21/04)

"Esta é a antiga plataforma que dita que 'o Islã é a solução'", disse, ao recordar o slogan tradicional do grupo na sua primeira entrevista como candidato. "Ela foi desenvolvida e cristalizada para que Deus possa abençoar a sociedade com ela." Em seu primeiro comício, ele liderou seus partidários entoando: "O Alcorão é a nossa Constituição, a Sharia nossa guia!"

Um mês antes de os egípcios começarem a votar para presidente, depois da derrubada de Hosni Mubarak, o país tem debatido o lugar do Islã na nova democracia prometida pelas revoltas da Primavera Árabe.

Morsi, que reivindica ser o único islâmico de verdade na disputa, enfrenta a concorrência de um feroz islâmico mais liberal, Abdel Moneim Aboul Fotouh, um líder pioneiro da Irmandade Muçulmana que foi expulso do grupo em junho por pedir uma abordagem ao Islã e ao Egito que fosse mais pluralista. Ele agora está em campanha como o defensor dos valores liberais na disputa.

Ambos enfrentam um terceiro concorrente, o ex-ministro de Assuntos Externos Amr Moussa, que argumentou esta semana que o Egito não pode pagar por um "teste" da democracia islâmica.

O vencedor pode definir o futuro do Egito, supervisionando a elaboração de uma nova Constituição, estabelecendo o status dos militares que atualmente governam o país e moldando as relações com o ocidente, Israel e sua própria minoria cristã. Mas à medida que os islâmicos tomam o poder em toda a região, o debate mais importante pode ser aquele que entre seus próprios partidos e seguidores sobre a agenda e os objetivos mais adequados para o momento.

O histórico e as declarações conservadoras de Morsi aguçaram o contraste entre visões diferentes do Islã.

A Irmandade, um grupo de 84 anos conhecido por sua pregação e caridade, bem como por sua postura política moderada, adotou uma abordagem muito mais suave na plataforma oficial lançada no ano passado. O grupo abandonou o slogan "O Islã é a solução", omitiu propostas controversas sobre um conselho religioso ou presidente muçulmano e prometeu respeitar os feitos entre Estados Unidos e Israel. Seus líderes parlamentares se distanciaram dos salafistas, os ultraconservadores que ganharam um quarto dos assentos no Parlamento.

O candidato original da Irmandade foi o estrategista Khayrat el-Shater, um empresário conhecido por seu pragmatismo. Ele tinha laços pessoais com líderes salafistas, mas não deixou muito para trás além de uma coluna de opinião publicada em um jornal ocidental salientando o compromisso da Irmandade com a tolerância e a democracia. El-Shater foi desclassificado na última semana por ter sido condenado em um julgamento que aconteceu na era Mubarak. Em sua curta campanha, ele reforçou o projeto de desenvolvimento econômico da Irmandade e raramente, se alguma vez, mencionou a lei islâmica.

Por outro lado, Morsi, 60, está se posicionando de maneira explícita como um islâmico mais conservador e um defensor fiel dos planos da El-Shater.

"Alguns querem impedir a nossa marcha para um futuro islâmico em que as Leis de Deus serão implementadas ano e fornecerão uma vida honesta a todos", proclamou sábado à noite em um comício no Delta do Nilo. "Estamos unidos com nossos irmãos salafistas em nossos objetivos e visão islâmicos. A Frente Islâmica deve se unir para que possamos cumprir esta visão."

A corrida presidencial está se transformando, de certa forma, em uma revanche da disputa interna sobre a plataforma do partido. Aboul Fotouh, atual adversário de Morsi, foi um dos poucos líderes da Irmandade que se opuseram abertamente às restrições sugeridas, como a criação de um conselho religioso e à imposição de um presidente muçulmano. Dois anos depois ele foi removido do conselho executivo em um ato conservador.

Embora Morsi tenha a Irmandade atrás de si, Aboul Fotouh é considerado mais carismático e detentor de fortes credenciais islâmicas. Enquanto Morsi estudava engenharia em Los Angeles no final dos anos 1970, Abul Fotouh fundava um movimento estudantil islâmico que posteriormente se fundiu e revitalizou a Irmandade Muçulmana. Ele defendeu o presidente Anwar Sadat em um confronto cara a cara na Universidade do Cairo.

Aboul Fotouh, um médico, também dirigiu o sindicato dos médicos da Irmandade, que tomou conta dos hospitais durante os protestos que derrubaram Mubarak no ano passado.

"O Egito tem sido um país orgulhosamente islâmico e árabe há 15 séculos", disse ele durante um comício na semana passada. "Não precisamos que o Parlamento nos converta." Além disso, disse ele, o correto entendimento da lei islâmica não deve ser reduzido a sanções ou restrições, mas deve significar "toda a misericórdia e justiça."

Durante a campanha, muitos eleitores pedem que Aboul Fotouh confirme rumores circulados em um vídeo online - por agentes da Irmandade, segundo seus partidários - de que, caso eleito presidente, ele poderia ordenar a prisão de todos os membros do grupo.

Após a derrubada de Mubarak, segundo Aboul Fotouh, o povo egípcio nunca permitiria que outro presidente detivesse quem quer que seja por motivos políticos. "Se ele fizer isso, o povo egípcio iria detê-lo!"

Quanto aos seus colegas da Irmandade Muçulmana, Abul Fotouh disse que eles devem ser tratados como qualquer outro grupo sem fins lucrativos. "Eles têm de ser associações legais e trabalhar com transparência e clareza", afirmou. "Todas as organizações e todos os partidos são iguais perante a lei."

Morsi, por sua vez, sugeriu que Fatouh foi expulso do grupo por desafiar a Irmandade ao concorrer à presidência. "Quando um membro nos deixa", disse Morsi, "nós não o culpamos, nós temos dó dele."

Por David D. Kirkpatrick

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