Naufrágio do Costa Concordia modifica turismo na Ilha de Giglio

Cruzeiro se torna principal atração local, atraindo visitantes que, porém, não ficam mais de um dia na ilha dependente do turismo

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Atualmente, quando os primeiros turistas da temporada atravessam o canal entre o continente da Toscana e a Ilha de Giglio, a deslumbrante vista que procuram não é a de suas águas cristalinas ou de suas pedreiras de granito rosa.

Naufrágio na Itália: Saiba o que aconteceu com o Costa Concordia

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Turistas a bordo de balsa observam navio semissubmerso Costa Concordia na área costeira da Ilha de Giglio, Itália (9/4)
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A principal atração – ou monstruosidade – da ilha é o navio Costa Concordia , meio tombado e naufragado em frente à entrada do porto, uma lembrança sempre presente do desastre que levou 32 vidas há três meses.

A questão para a maioria das pessoas nessa ilha dependente do turismo, que atraiu 23 mil visitantes no ano passado, é se o acidente será bom ou ruim para os negócios. A resposta não virá tão cedo, mas, de acordo com os primeiros indícios, parece ser ambivalente. Reservas antecipadas para hospedagem mostram uma queda de 20% para a temporada de verão, enquanto passeios de um dia parecem ser maioria, embora não haja uma contagem oficial.

"Vivemos na incerteza total este ano", disse Paolo Fanciulli, dono do Hotel Bahamas, localizado em Giglio Porto.

Na noite do acidente , centenas de passageiros encontraram refúgio no hotel, juntamente com um convidado controverso: o capitão do navio Francesco Schettino , que agora está em prisão domiciliar perto de Nápoles, acusado de homicídio culposo, de abandonar o navio e causar um naufrágio.

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"As reservas para a temporada de verão estão lentas", disse Fanciulli. "Recebemos emails de todo o mundo perguntando sobre a relíquia, mas as pessoas não fazem reservas. No início, achamos que essa fama inesperada poderia trazer mais turistas para a ilha, mas por enquanto a curiosidade não passou de um fenômeno que dura uma visita de um dia."

As notícias se espalharam pelo mundo depois que o navio de cruzeiro bateu em uma pedra submersa com 4.229 a bordo e engendraram impressões erradas, segundo autoridades de turismo locais. Apesar de especialistas de salvamento terem retirado todo o combustível do navio , muitos turistas ainda parecem preocupados com a ameaça de poluição e com a possibilidade de encontrar um cenário caótico, tomado por trabalhadores de resgate, embora apenas algumas centenas deles ainda estejam alocados na região.

Apesar dos esforços para acalmar os temores, os únicos turistas que têm demonstrado maior interesse em visitar a ilha são os excursionistas que passam um dia no local para serem fotografados com o navio semiafundado ao fundo. Um deles, Virginie Breton, 34, francesa, decidiu passar um dia na ilha durante uma longa viagem de um mês pela Itália.

"É um pouco estranho, mas as pessoas não visitam o local onde ficava o World Trade Center ?", perguntou. "Vir aqui é a mesma coisa. Isso faz parte da história."

Enquanto a balsa se aproximava do porto de Giglio recentemente, passando pelo cruzeiro de 114,5 mil toneladas, Breton chegou mais perto da grade no convés para dar uma olhada melhor. Outros passageiros se inclinaram com seus iPhones ou câmeras, enquanto alguns faziam o sinal da cruz.

"Realmente só viemos aqui para agradar as crianças", disse Debora Vano, 35, enquanto seus dois filhos, 8 e 13, corriam pela balsa para encontrar o melhor ângulo para tirar uma fotografia do navio, uma lembrança para mostrar aos amigos da escola em Milão. "Queríamos ir às termas de Pitigliano, mas as crianças queriam ver o navio."

Em uma passagem perto das pedras da praia, que oferece o ponto de vista mais próximo do navio, um fluxo constante de pessoas com mochilas marcha pelas lojas de souvenirs e restaurantes de frutos do mar. Os vendedores de souvenirs não têm se queixado disso, mas outras pessoas sim.

"Por enquanto, a multidão de jornalistas e equipes de resgate têm ajudado nossa economia mais do que os turistas de um dia", disse Rosalba Brizzi, 50, gerente do Bar Fausto, que vende itens como sanduíches e café. Os excursionistas "não compram muito, e este ano eles têm ainda menos dinheiro para gastar por causa da crise."

Um dos visitantes, Marcelo Giorgetti, 49, um encanador de Grosseto, disse: "Já visitamos Giglio antes, mas dessa vez viemos para ver o monstro." Ele estava deitado sobre as rochas de granito liso de frente para o navio naufragado com sua esposa, sua irmã e um casal de amigos. "Ainda acho que há outros corpos lá", disse.

Nas semanas após o acidente, 17 corpos foram recuperados, e outros 13 foram encontrados nos meses posteriores - cinco deles foram identificados na terça-feira de 17 de abril. Dois passageiros ainda estão desaparecidos e presumidamente mortos.

Alguns moradores de Giglio permanecem otimistas sobre os próximos meses, como a presidenta do departamento turístico local Samantha Brizzi. Ela acha que Giglio deve encontrar maneiras de tirar proveito do período até que o Costa Concordia seja removido, o que deve ocorrer no próximo ano.

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Turistas a bordo de balsa observam cruzeiro Costa Concordia, na Ilha de Giglio, Itália
A Secretaria de Turismo está planejando aumentar seus pacotes de férias, acrescentando estadas e fins de semana durante o inverno – uma revolução potencial em uma ilha que perde mais de 500 de seus quase 1,5 mil moradores de novembro até o feriado da Páscoa.

"Devemos ver isso como uma oportunidade", disse. "Afinal de contas, nem mesmo a Coca-Cola poderia conseguir tido esse tipo de publicidade mundial."

Outros permanecem céticos. "Estou muito preocupado, mesmo que a situação seja melhor agora do que em janeiro", disse Fabio Mattera, gerente do Da Meino, um dos mais antigos restaurantes em Giglio Porto. "Eu realmente não posso esperar até outubro. Talvez meu restaurante afunde como o Concordia."

*Por Gaia Pianigiani

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