Criador do WikiLeaks tenta melhorar imagem com talk show na TV russa

Em prisão domiciliar, Julian Assange começa programa entrevistando líder do grupo militante Hezbollah

The New York Times |

Quando Anderson Cooper estreou um programa de entrevistas, seu primeiro convidado foi o sofrido pai da cantora Amy Winehouse. Julian Assange , o fundador do WikiLeaks , estreou seu próprio talk show no dia 17 de abril, oferecendo uma versão mais particular de um entrevistado sensacional: o líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah.

Assange, cujo programa é transmitido pela RT, rede composta por uma emissora e um site de notícias apoiada pelo Kremlin, afirmou se tratar da primeira entrevista de Nasrallah ao Ocidente desde 2006. E os dois homens procurados tiveram uma conversa agradável, mesmo que não estivessem no mesmo sofá, ou sequer no mesmo continente.

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AP
Julian Assange concede entrevista em Londres (27/02)

Eles discutiram Israel, Líbano e Síria por uma videoconferência: Assange está em prisão domiciliar no Reino Unido, e Nasrallah, que é um dos primeiros na lista de alvos valorosos de Israel, falou de um local secreto no Líbano. Eles conversaram com a ajuda de intérpretes, mas mesmo assim conseguiram brincar um pouco.

Nasrallah observou ironicamente que até mesmo a tecnologia de decodificação israelense mais sofisticada não conseguiria decifrar a gíria usada pelos jovens de sua rede nos walkie-talkies que usam para se comunicar. Nenhum analista de computador, ele disse, "vai entender quem é o pai do frango e por que eles o chamam assim". Nasrallah acrescentou que "isso também não serviria para o WikiLeaks".
Os dois homens riram amistosamente.

Assange disse que o tema de seu programa de meia hora de duração é "o mundo de amanhã". Mas há algo quase atávico sobre o meio que escolheu. A emissora RT, antes conhecida como Russia Today, é uma rede de notícias em inglês criada pelo líder russo Vladimir Putin em 2005 para promover o Kremlin no exterior (ela também tem transmissões em espanhol e árabe). Trata-se de algo mais parecido com o Voice of America, só que com mais dinheiro e uma inclinação antiamericana. Basicamente, é uma plataforma improvável para um homem que se apresenta como um delator radical de esquerda e defensor da liberdade de expressão que enfrenta superpotências.

O programa provavelmente não irá ganhar muitos pontos de audiência ou mudar muitas mentes, mas pode servir a outra agenda de Assange: controlar os danos.

Sua reputação despencou desde que ele abalou o mundo em 2010, liberando, em cooperação com The New York Times e várias outras organizações de notícias, diversos documentos secretos do governo, incluindo relatórios de campo de batalha do Iraque e do Afeganistão. A maioria das organizações de notícias editou os documentos para proteger vidas, mas Assange publicou tudo em seu site. Para alguns ele era um herói, para outros um espião, mas hoje em dia ele é mais frequentemente retratado como um maluco.

A Suécia está pedindo a sua extradição por múltiplas acusações de má conduta sexual ; ex-colegas do WikiLeaks descontentes o descrevem como grandioso e paranoico. Assange diz aos repórteres que está sendo perseguido por razões políticas, algo que, mesmo que seja verdade, não ajuda no seu caso.

Talvez por este desgaste, Assange deixou a propriedade de um apoiador no interior do Reino Unido, onde passou mais de 300 dias em prisão domiciliar, e agora vive em uma casa mais modesta no sul da Inglaterra.

Em seu talk show, Assange pareceu um pouco duro, mas racional: ele não falou muito sobre si mesmo e fez perguntas difíceis a Nasrallah sobre o apoio do Hezbollah ao presidente Bashar Al-Assad, da Síria. Ele ainda citou relatórios, encontrados pelo WikiLeaks, que sugerem que há corrupção e extravagâncias na vida de alguns membros do Hezbollah. Assange citou carros esportivos caros, roupões de seda e "comida delivery" como sinais de decadência.

Em uma entrevista promocional antes do programa, realizada por um repórter da emissora RT, Assange disse que escolheu essa rede porque ela tem maior penetração nos Estados Unidos do que a Al-Jazeera e outras similares. Ele disse não estar ansioso em saber a opinião dos outros sobre seu programa. Ele previu que o The New York Times, entre outros, iria tratá-lo como um "combatente inimigo e traidor que foi para a cama com o Kremlin”.

Claro, na prática Assange está na cama com o Kremlin, mas no programa de terça-feira ele não se entregou completamente.

Moscou está em desacordo com Washington sobre a Síria, e em conformidade a emissora RT dá o tom a suas reportagens de Damasco com ataques nítidos ao Ocidente e o apoio dos Estados Unidos a combatentes da oposição que a rede descreve como "terroristas".

Ao contrário da RT, Assange apoia as forças de oposição. Ele questionou Nasrallah por apoiar todos os levantes da Primavera Árabe exceto aquele contra a Síria e perguntou por que ele não estava fazendo mais para impedir o derramamento de sangue no país.

Nasrallah foi bastante contundente, notando que "todo mundo sabe" que o regime de Assad apoia o Hezbollah e o movimento palestino e que a lealdade funciona em ambos os sentidos. Ele também negou que quaisquer membros do grupo sejam “bons vivants”, dizendo provavelmente se tratar apenas de alguns fãs do Hezbollah de famílias ricas do sul do Líbano.

Assange disse que seria capaz de atrair convidados difíceis porque "eles não estarão lidando com um entrevistador padrão, mas, sim, com alguém que está sob prisão domiciliar”.

Em sua primeira incursão como apresentador de talk show, no entanto, Assange fez tudo para reduzir seu isolamento e se comportou surpreendentemente como um entrevistador comum.

As Kardashians podem ser as próximas.

Por Alessandra Stanley

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