Com ligação por cabo submarino, Iraque entra para o mundo digital

Internet é raridade em país que tem apenas 3% das famílias online e esteve alheio a décadas de progresso tecnológico

The New York Times |

O Iraque permaneceu alheio a décadas de progresso tecnológico por causa de uma ditadura, inúmeras guerras e sanções. Recentemente o país abandonou o isolamento e entrou para o mundo digital quando seu sistema de telecomunicações foi ligado a um novo cabo submarino que atende países do Golfo Pérsico.

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Os engenheiros que projetaram e instalaram o cabo que chegou à costa de Al-Faw, perto de Basra, no sul do Iraque, tiveram de lidar com inúmeros desafios incomuns. Eles tiveram de passar por mais de 100 gasodutos e oleodutos, trechos de águas rasas onde o cabo precisou ser enterrado e bombas não detonadas que precisaram ser evitadas.

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Funcionários trabalham em sistema de cabo que conecta o Oriente Médio à África, Ásia e Europa
"Não foi fácil", disse Ahmed Mekky, executivo-chefe da Gulf Bridge International, empresa que construiu o sistema. "Esse pode ser um passo importante para a recuperação do país."

O cabo irá acelerar o tráfego de internet e telefone para a Índia, no Oriente, e a Sicília, no Ocidente. A partir daí, o tráfego se moverá por outras redes para ligar o Iraque ao resto do mundo.

Grande parte do mundo reclama do serviço de banda larga a que tem acesso, mas a internet ainda é uma raridade no Iraque, onde menos de 3% das famílias estão online. A nova capacidade poderia ajudar elevar as conexões de internet para 50% em dois anos, disse Mohammed Tawfiq Allawi, o ministro das Comunicações do Iraque.

"Você tem de ter o costume de usá-la, tem de ter infraestrutura para usá-la e acesso a dispositivos de baixo custo", disse.

Elo de comunicação

Allawi e Mekky veem mais do que apenas benefícios domésticos para o Iraque. Eles querem que a ligação à rede submarina sirva como o primeiro passo em um plano para transformar o Iraque em um polo para o tráfego de telecomunicações entre o Oriente e o Ocidente, algo que forneceria ao país uma fonte de receita lucrativa.

"Isso fará do Iraque um polo importante para conectar a Ásia e a Europa", disse Mekky. "É muito estratégico para o país."

Como os comerciantes que operavam na antiga Rota da Seda, as operadoras de telecomunicações que transportam bits e bytes da Ásia para a Europa tem deafio mesmo no ambiente digital. Quando algo dá errado, as consequências podem ter longo alcance.

Em janeiro de 2008, por exemplo, cabos submarinos foram inexplicavelmente cortados na costa do Egito. Dias depois, outro cabo foi cortado perto de Dubai, e a âncora de um navio foi culpada pelo suposto acidente. Toda a telecomunicação do Oriente Médio foi fortemente prejudicada e, em um efeito cascata, todas as do mundo foram atingidas. Um incidente similar, embora menos grave, ocorreu em fevereiro no Mar Vermelho.

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Iraquianos navegam pelo Facebook em cibercafé de Bagdá
O tráfego está crescendo tanto na região quanto internacionalmente, alimentado pela propagação de telefones celulares e por uma adoção tardia da internet.

A demanda por banda larga internacional tem crescido a uma taxa anual de quase 100% em toda a região nos últimos cinco anos, segundo a TeleGeography, empresa de pesquisa local. Esse é o mais rápido crescimento do setor em qualquer região do mundo, e cerca de duas vezes a taxa de aumento da América do Norte.

Limites

Até recentemente, as opções para se passar através do Oriente Médio eram limitadas, e as ligações no interior da Região eram muitas vezes irregulares. A maioria do tráfego Leste-Oeste acontecia via Egito e Mar Vermelho, uma rota que se mostrou vulnerável.

Outro projeto de transmissão via cabo, previsto para ser concluído ainda este ano, passaria pelo Irã, ligando o Golfo à Europa. Mas analistas afirmam que as sanções econômicas contra o Irã poderiam dificultar a atração de clientes europeus.

Duas outras linhas terrestres ligam o Golfo à Europa - uma ativada recentemente, a outra ainda em desenvolvimento - e passam pela Síria, onde os protestos contra o regime do presidente Bashar al-Assad continuam.

Por causa da crise na Síria e das tensões sobre o Irã, a possibilidade de transferir o tráfego para o Iraque de repente se tornou mais atraente para as operadoras de telecomunicações.

"Se você quiser ir da Arábia Saudita para a Europa, tem de passar pelo Irã, Iraque ou Síria", disse Alan Mauldin, analista da TeleGeography. "Qual desses países está mais estável agora? O Iraque é o menos pior de todos eles".

*Por Eric Pfanner

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