Beirute se transforma em refúgio em meio à caótica situação de vizinhos árabes

Luxuosa Baía de Zaitunay representa esforços do Líbano para retomar sua grandiosidade pré-guerra civil, que terminou em 1990

The New York Times |

De uma rampa localizada em uma estrada costeira em Beirute, é possível avistar iates e passageiros que aproveitam um belo passeio marítimo. O calçadão de tábuas de madeira da luxuosa praia ressalta um dos elementos que tornam essa experiência um tanto quanto diferente quando algumas das mulheres que andam por ali com bolsas da Louis Vuitton e prendem seus saltos altos no píer.

Esporte: Seleção de futebol ajuda a unir a população do Líbano

Esse parque de diversões de luxo, conhecido como Baía de Zaitunay, é um dos mais recentes esforços do Líbano para retomar sua grandiosidade pré-guerra - quando Beirute era um porto em voga. Mas para os visitantes árabes que buscam refúgio do medo e da incerteza que parece cercar a região, e para aqueles que procuram ficar de fora de todo este caos, o renascimento de Beirute já foi concluído.

NYT
Baía de Zaitunay, em Beirute, dista de realidades conflituosas como a de Damasco
"O Líbano consegue unir a Europa, o Mediterrâneo, o Oriente e o Ocidente em um lugar só", disse Noor al-Tai, que passeava no calçadão em uma minissaia de couro, botas e um colete de pele, explicando por que Beirute foi seu destino óbvio para fugir da violência de casa no Iraque. "Aqui há uma atmosfera muito amigável."

O povo de Beirute raramente pensa a respeito do fato de que a Baía de Zaitunay se encontra na Linha Verde, a fronteira entre o leste e o oeste da cidade, que era considerada terra de ninguém durante a guerra civil que abalou o Líbano 15 anos atrás. Mas para os ricos, pelo menos, o país já recuperou faz tempo o seu espírito de diversão, assim como seu aspecto glamouroso.

Turbulência regional

Até mesmo a incansável vida noturna da cidade não consegue apagar por completo as preocupações existentes sobre o conflito em países vizinhos, como a Síria. Mas para os árabes que estão cansados dos bombardeios em Homs, da crise financeira de Dubai ou da situação política no Cairo, Beirute é um oásis para encontrar a paz.

As divisões que deram início à guerra civil do Líbano podem ter ajudado a isolá-lo das revoltas árabes do ano passado. A guerra terminou no ano de 1990, depois de uma repartição rígida de poder entre as seitas religiosas dominantes. O sistema é fragmentado e ineficiente, mas permite a dissidência e mantém o Estado fraco, com pouca capacidade para impor ou intimidar.

Isso tudo não quer dizer que o turismo em Beirute não tenha sido prejudicado. A ocupação dos hotéis permanece baixa, 55% nos primeiros nove meses de 2011, em 2010 foram no mesmo período, de acordo com a empresa prestadora de serviços Ernst & Young.

Mas sírios que buscam a paz e tranquilidade ajudaram a recuperar as perdas dos hotéis. Beirute é também um destino financeiro onde empresários sírios transferem o seu dinheiro para os bancos libaneses.

Sonia Bailouni, uma psicóloga síria que tomava sol à beira da praia, vive em Beirute há anos com seu marido libanês e agora está trazendo parentes que moram em Aleppo, na Síria, para o Líbano, onde, de acordo com ela, a guerra não irá chegar. "Nós já passamos por tudo que há de ruim neste país", disse ela.

Então ela combinou italiano e árabe em uma frase improvisada que define um pouco do espírito cosmopolita de Beirute: "Finito la mishkala!" Algo como “Acabaram-se os problemas”, em tradução literal.

*Por Anne Barnard

    Leia tudo sobre: beirutelíbanosíriaoriente médioprimavera árabeguerra civil

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG