Rápido crescimento populacional impõe teste à Nigéria

Sem infraestrutura para aumento em número de habitantes, país tem queda de padrão de vida e desemprego de quase 50% entre jovens

The New YorkTimes |

Em 25 anos, caso a taxa de crescimento populacional se mantenha, a Nigéria terá cerca de 300 milhões de habitantes. Em Lagos, um centro comercial onde a população quase dobrou em 15 anos, chegando a 21 milhões, o padrão de vida está caindo rapidamente.

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Mercado de rua na Ilha de Lagos, Nigéria (9/3)
Pessoas que passaram a vida toda na cidade, como Peju Taofika e suas três netas, habitam um quarto em um prédio de apartamentos típico conhecido como "Me Encara, Te Encaro" porque famílias inteiras se espremem em quartos minúsculos posicionados de frente um para o outro em um estreito corredor. Até 50 pessoas compartilham banheiro, cozinha e pia - embora o encanamento no bairro muitas vezes não transporte água.

Na Escola Primária de Alapere, mais de cem estudantes entopem a maioria das salas de aula, dois por mesa. À medida que os alunos se formam nas escolas secundárias e universidades, a taxa de desemprego da Nigéria se aproxima de 50% em áreas urbanas para pessoas de idades entre 15 e 24 anos - aumentando o crime e descontentamento.

A crescente classe média-alta também sente o aperto, já que mesmo trajetos curtos de subúrbios próximos demoram de 2 a 3 horas.

Em outubro, as Nações Unidas anunciaram que população mundial atingiu a marca de 7 bilhões e cresceria ainda mais rapidamente ao longo das próximas décadas, desgastando recursos naturais caso os países não passassem a gerenciar melhor seu crescimento.

Infográfico: Um mundo com sete bilhões de pessoas

Quase todo o crescimento, no entanto, acontece na África subsaariana, onde "o aumento da população ultrapassa de longe a expansão econômica. Dos cerca de 20 países em que as mulheres têm uma média de cinco filhos, quase todas ficam na região".

Em outro lugar no mundo em desenvolvimento, na Ásia e na América Latina, as taxas de fertilidade caíram acentuadamente nas últimas gerações e se assemelham àquelas nos EUA - de apenas dois filhos por mulher. Essa transformação foi impulsionada por uma combinação de oportunidades de educação e emprego para as mulheres, acesso à contracepção, urbanização e evolução da classe média. No entanto, não se sabe se isso seria possível na África subsaariana.

"O ritmo de crescimento na África é diferente de qualquer outro que já enfrentamos e um problema crítico", disse Joel E. Cohen, professor de populações da Universidade Rockefeller, em Nova York. "O que é eficaz no contexto desses países pode não ser aquilo que funcionou na América Latina e em outros locais."

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Estudantes são vistos em classes separadas por lousas no distrito de Ketu, em Lagos, Nigéria (9/3)
Em toda a África subsaariana, governos alarmados começaram a agir para reverter políticas antigas que incentivavam famílias grandes. A Nigéria passou a distribuir contraceptivos gratuitamente no ano passado, e as autoridades promovem famílias menores como uma chave para a salvação econômica, apontando a situação financeira em países como a Tailândia como inspiração.

A Nigéria, que já é o sexto país mais populoso do mundo, com 167 milhão de habitantes, será uma teste crucial, pois seu sucesso ou fracasso em diminuir as taxas de natalidade terá um impacto descomunal na população mundial. Se esse país não puder controlar seu crescimento populacional, poderia haver esperança para muitos países menores e mais pobres?

"A população é fundamental", disse Peter Ogunjuyigbe, um demógrafo da Universidade Obafemi Awolowo, localizada na pequena cidade de Ile-Ife. "Se você não conseguir cuidar da população, as escolas não conseguirão lidar, não haverá hospitais, não haverá habitação. Não há nada que você possa fazer para ter desenvolvimento econômico."

O governo nigeriano está investindo em infraestrutura rapidamente, mas alguns especialistas temem que ela e outras nações africanas não ajam a tempo. Por duas décadas, o governo nigeriano tem recomendado às famílias a se limitar a ter quatro filhos, com poucos resultados.

Embora tenha reconhecido que mais países tentam controlar sua população, Parfait M. Eloundou Enyegue, professor de sociologia do desenvolvimento na Universidade de Cornell, disse que "muitos países somente trabalham nessa questão quando confrontados com motins por falta de alimentos ou quando são informados que têm a maior taxa de fertilidade do mundo".

Na Nigéria, segundo especialistas, o número cada vez maior de jovens desempregados tem alimentado o crescimento do grupo radical islâmico Boko Haram , que bombardeou e queimou dezenas de igrejas e escolas este ano.

Terrorismo: Boko Haram deixou quase mil mortos desde 2009, diz relatório

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O mercado ferroviário no distrito de Agege em Lagos, Nigéria, em 2 de março. Desemprego no país é de quase 50% em áreas urbanas para jovens entre 15 e 24 anos
Internacionalmente, a expansão populacional africana significa um aumento na imigração ilegal, já em alta, segundo a Frontex, agência europeia de fronteiras. Há cerca de 400 mil africanos vivendo ilegalmente nos EUA.

A Nigéria, como muitos países africanos subsaarianos, sofreu um ligeiro declínio nas taxas de fertilidade recentemente, de 6,8 em 1975 para cerca de 5,5 no ano passado. Mas esse nível de fertilidade combinada com uma população extremamente jovem ainda coloca países assim em uma íngreme e desastrosa curva de crescimento. Metade das mulheres nigerianas são menores de 19 anos e estão apenas entrando no seu auge fértil.

*Por Elisabeth Rosenthal

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