Jardins verticais melhoram imagem da Cidade do México

Arco com 50 mil plantas busca trazer reputação verde para a capital do México, uma das cidades mais poluídas do mundo

The New York Times |

"Devemos cultivar nossos jardins", Voltaire escreveu no final do livro "Candide". Ele certamente não tinha em mente algo como o que vem acontecendo na Cidade do México, onde um arco gigantesco contendo 50 mil plantas se ergue sobre uma avenida de tráfego pesado desta capital mais conhecida por sua poluição.

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Jardim em U foi construído como parte de um esforço para unir arte e oxigênio na capital mexicana
O jardim vertical quer melhorar tanto a qualidade da vida na cidade como sua imagem.

Uma das três ecoesculturas instaladas por toda a cidade por uma empresa sem fins lucrativos chamada VerdMX, o arco é arte e oxigênio. Ele chama a atenção e engole o dióxido de carbono que contribui para os níveis elevados de ozônio, especialmente nesta época do ano, quando o sol é forte e as chuvas são raras.

"A principal prioridade dos jardins verticais é transformar a cidade", disse Fernando Ortiz Monasterio, 30 anos, arquiteto que projetou as esculturas. "Essa é uma forma de intervir no meio ambiente da grande cidade".

Muitas cidades têm reputações verdes - Portland, por exemplo, tem os seus próprios jardins verticais. Mas no mundo em desenvolvimento, onde a classe média está crescendo juntamente com seu poder de consumo, produção de resíduos e uso de energia, a Cidade do México é um admirável mundo novo.

A piada perdeu a graça quando o ar passou de conhecidamente ruim para muito melhor. Os níveis de ozônio e outras medidas da poluição do ar já estão aproximadamente iguais aos do ar mais limpo de Los Angeles.

"Tanto Los Angeles quanto a Cidade do México melhoraram a qualidade do seu ar, mas na capital mexicana a mudança é mais perceptível", disse Luisa Molina, pesquisadora do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, que estudou zonas de poluição extensas. O México "é muito avançado e não apenas em comparação com outros países da América Latina. Quando eu vou para a China, todos querem saber a história do México".

Política

Em parte, a questão é política. Desde os anos 1980, o governo do México reformulou a gasolina local, transferiu ou fechou fábricas tóxicas e proibiu os motoristas de usarem seus carros um dia por semana. Mais recentemente, a Cidade do México criou um programa de empréstimo de gratuito e expandiu os sistemas de transporte públicos.

Os ambientalistas ficam menos impressionados com autoestradas elevadas ainda em construção. Mas mesmo o mais otimista dos mexicanos nunca teria esperado que o governo criasse "o melhor dos mundos possíveis", para citar Pangloss, personagem de "Candide", por isso muitos preferem festejar iniciativas cooperativas como as do grupo VerdMX.

A Cidade do México se tornou uma incubadora para tipos de teses de grupos, que misturam financiamento corporativo com novas ideias. Alguns dizem que a atividade decorre da natureza tangível do problema, a poluição ruim é sentida em todas as gargantas. Mas, independentemente do propósito, entre os jovens educados e modernos - aqueles que abrem e frequentam lojas de estilistas mexicanos e optam por curtir a noite no festival Vive Latino - há uma crescente consciência cívica.

Chapultepec

O jardim vertical mais impressionante da cidade paira sobre a Avenida Chapultepec, em um cruzamento normalmente engarrafado com ônibus, carros e táxis. Em uma manhã recente, os motoristas pareciam passar pela instalação sem perceber as plantas, desoladas e opacas. Apenas as sortudas viradas para o sul, onde há uma rua mais calma, longe dos ônibus em marcha lenta, pareciam estar crescendo a uma taxa normal.

"As plantas são perturbadas por todo o tráfego", disse Gabriela Rodríguez, diretora do VerdMX. Ainda assim, ela disse, eles foram escolhidos por sua robustez e devem sobreviver pelo menos por um ano, tempo que a escultura está prevista para permanecer no local. O principal desafio do projeto parece ter sido a cultura local. Rodriguez, uma designer de cabelos tingidos de preto, com voz profunda e preferência por tons de rosa, disse que encontrar recursos e obter as permissões necessárias do governo demorou anos.

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Jardim vertical no restaurante Padriños, na Cidade do México
Ela disse que a Nissan, a empresa patrocinadora, precisou ser convencida de que receberia o crédito que merecia. E o governo precisou ser convencido de que o jardim funcionaria como um monumento vivo.

"O México é ainda um local com uma cultura muito conservadora", disse Ortiz, o arquiteto. "Quando eu dizia às pessoas sobre isso, elas sempre falavam: 'Isso é impossível. Você está louco'".

Outros tratavam o jardim como um desperdício de dinheiro. Um homem que caminhava pela região afirmou que, embora os mexicanos amem as artes, um U de cabeça para baixo cheio de plantas não se compara com um mural de Diego Rivera.

Mas talvez ele não precise. Hernandez disse que muitos moradores gostam tanto da escultura que tiram fotos dela, e Riberto Pineda, 17 anos, que lava parabrisas no semáforo, disse que tem aprendido a amar o jardim vertical por dois simples motivos: "Ele é bonito e faz uma ótima sombra."

*Por Damien Cave

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