Novos temas dividem Igreja Anglicana

Cada vez mais dividida sobre a homossexualidade e a ordenação de mulheres, a Igreja Anglicana vive uma das mais graves crises de sua história, a ponto de alguns falarem em um cisma, às vésperas de uma importante Conferência Episcopal que acontece a partir de meados de julho, na Inglaterra.

AFP |

"A crise é sem precedentes desde a Reforma que devastou a Igreja Católica na Inglaterra no século XVI", escreveu o jornal "The Times" em sua edição desta terça-feira.

O jornal dedica sua primeira página à ameaça feita por 1.300 eclesiásticos anglicanos de deixar a Igreja, em protesto a uma votação que pode consagrar a ordenação de mulheres na posição de bispo, no Reino Unido. Na carta enviada ao primaz anglicano e ao arcebispo de York, John Sentamu, eles anunciam que estão dispostos a romper com a Igreja da Inglaterra.

No domingo, cerca de 300 bispos e arcebispos conservadores anunciaram, por ocasião de um conclave em Jerusalém, a formação de uma nova comunhão na Igreja Anglicana que não reconheceria a autoridade do arcebispo de Canterbury, Rowan Williams.

Esses conservadores, que denunciam a linha liberal em relação à homossexualidade e um "declínio espiritual" no Ocidente, formaram um conselho de primazes, com seis religiosos (cinco africanos e um sul-americano), que seria a mais alta autoridade nessa Igreja dissidente.

O arcebispo de Canterbury, chefe da Igreja Anglicana, cuja primazia vem sendo diretamente atacada, convidou os dissidentes a "refletirem, atentamente, para os riscos envolvidos".

"Não basta contestar as estruturas existentes da comunhão. Se elas não funcionam eficazmente, o desafio é renová-las, mais do que improvisar soluções (...) que vão continuar a criar mais problemas que elas não resolverão", declarou ele, em uma nota divulgada na segunda-feira, propondo um debate durante a conferência de Lambeth.

Essa conferência episcopal, que acontece a cada dez anos, deve ter início em 16 de julho, em Canterbury (sul da Inglaterra), e vai até 4 de agosto. A maioria dos religiosos que participou do encontro dissidente de Jerusalém já antecipou que não pretende comparecer.

Os rachas entre os anglicanos não são novos, considerando-se que a instituição se encontra dividida de forma profunda desde a ordenação, em 2003, de Gene Robinson, um americano declaradamente homossexual, como bispo de New Hampshire, por parte da Igreja Episcopal americana.

Além disso, a ordenação de Barbara Harris, a primeira mulher a alcançar o bispado, em 1989, já havia sido alvo de forte mal-estar e insatisfação.

Para os conservadores, essas práticas põem em xeque a interpretação da Bíblia e os fundamentos da fé para os cerca de 77 milhões de anglicanos no mundo.

O cisma já existia, "mas não se podia mensurá-lo" até o domingo, "quando uma assembléia de várias centenas de bispos, africanos, em sua maioria, formou, em Jerusalém, uma nova Igreja", avalia o "Guardian", no editorial.

A estrutura da Igreja Anglicana, bem menos hierarquizada do que a da Igreja Católica, permitiu às diferentes minorias que se desenvolvessem, analisou Jonathan Bartley, co-diretor de pesquisa do centro de reflexões Ekklesia.

"No presente, porém, assistimos a um choque sísmico (...). Não se trata mais da interpretação da Bíblia, da questão da homossexualidade, ou da ordenação das mulheres, mas da maneira como a Igreja está organizada", explicou.

Desde que o rei Henrique VIII fundou a Igreja Anglicana, ao romper com o Vaticano em 1534, esta se tornou uma Igreja do Estado, "mas agora ela deve encontrar uma maneira de se adaptar à diversidade", completou Bartley.

Esses ataques contra a hierarquia da Igreja Anglicana acontecem no momento em que ela enfrenta o questionamento sobre seu papel institucional e perda de fiéis.

Segundo um estudo de 2006 da organização Christian Research, os católicos já são mais numerosos do que os anglicanos no Reino Unido.

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