Novo incêndio atinge reator 4 de usina nuclear do Japão

País se aproxima de desastre nuclear após incidentes em Fukushima; barras de combustível nuclear ficam danificadas

iG São Paulo |

Um novo foco de incêndio foi descoberto às 5h45 de quarta-feira no Japão (17h45 desta terça-feira em Brasília) na seção nordeste do prédio do reator 4 da usina nuclear japonesa de Fukushima Daiichi, disse Hajimi Motojuku, porta-voz da Tokyo Electric and Power Co. (Tepco), que administra a instalação. A Tepco disse que consideva usar um helicóptero para dispersar ácido bórico, um retardador de fogo, sobre o edifício que abriga o reator.

Cerca de três horas depois do início do incêndio, a agência nuclear japonesa disse que o fogo e fumaça não eram mais vistos na unidade 4, mas foi incapaz de confirmar se o novo foco foi extinto. De acordo com a agência, 70% das barras de combustível podem ter sido danificadas no reator 1 da usina, cuja explosão deu início à crise no sábado.

"Mas não sabemos a natureza do dano, podendo ser derretimento ou alguns buracos nelas", disse o porta-voz Minoru Ohgoda. Segundo a agência nacional Kyodo, 33% das barras de combustível no segundo reator também foram danificadas.

O novo incêndio acontece um dia depois de uma explosão no reator 2 da usina e do primeiro incêndio no 4 , que danificou o teto do edifício e emitiu radiação na atmosfera, causando pânico no país e pressionando o governo a tentar conter uma crise causada pelo terremoto de 9,0 graus seguido por tsunami de sexta-feira. Há informações de que o novo incêndio aconteceu porque o primeiro não foi extinto totalmente.

Níveis de radiação em áreas ao redor da usina nuclear, que aumentaram na tarde desta terça-feira, parecem ter diminuído durante a madrugada de quarta no país, disse a Agência Internacional de Energia Atômica da ONU (AIEA). Previamente, o porta-voz do governo, Yukio Edano, disse que o alto nível de radiação detectado no início da manhã após a explosão e o incêndio " certamente teria efeitos negativos no corpo humano ". Segundo a Tepco, no momento do pico de radiação, uma hora de exposição superava em oito vezes o limite legal permitido para um ano.

A crise nuclear aumenta o sentimento de incerteza em um país que tenta se recuperar de desastres que, estima-se, deixaram mais de 10 mil mortos e estremeceram a terceira maior economia do mundo.

A AIEA disse que outras usinas nucleares japonesas, como Onagawa, Tokai e Fukushima Daini estão "estáveis e seguras", mas que a situação em Fukushima Daiichi, onde estão os reatores danificados, é preocupante. Segundo o diretor-geral da agência nuclear da ONU, Yukiya Amano, há o temor de que tenha acontecido um dano no núcleo do reator 2 da usina.

De acordo com a AIEA, 150 pessoas na região da usina foram examinadas para detectar possíveis contaminações por radiação. Já foram tomadas medidas para a descontaminação de 23 pessoas. O Itamaraty anunciou nesta terça-feira que o consulado do País em Tóquio lançou uma operação para resgatar brasileiros que vivem perto da instalação atômica.

A agência nuclear da ONU diz que o total de radiação a que uma pessoa normalmente se expõe durante um ano, contando todas as fontes normais, é de cerca de 2,4 milisieverts (unidade de medida que avalia os efeitos da radiação absorvida pelo organismo). Pessoas que vivem nas proximidades de instalações nucleares estão expostas a uma dose de 1 milisievert adicional ao ano, segundo a agência.

Dentro da usina de Fukushima Daiichi, uma medição chegou a detectar 400 milisieverts de radiação no ar, entre os reatores número 3 e número 4, antes do novo incêndio. Nos arredores da instalação, a quantidade de radiação liberada no ar chegou a atingir 11,9 milisieverts, mas caiu para 0,6 milisieverts seis horas depois.

A Organização Meteorológica Mundial disse que ventos começam a dispersar o material radioativo do ar para o oceano. No entanto, há previsões de que a direção das correntes de ar mudem na quinta-feira.

O primeiro-ministro japonês, Naoto Kan, pediu aos 140 mil moradores em um raio de até 30 quilômetros da usina que permaneçam dentro de casa com as janelas fechadas, para evitar a exposição à radiação. Autoridades também estabeleceram uma zona de exclusão aérea sobre o complexo nuclear.

Preocupações sobre a radiação atingiram Tóquio e outras regiões. Na Província de Ibaraki, ao sul de Fukushima, o nível de radiação na terça-feira estava 100 vezes maior do que o normal. Na Província de Kanagawa, a sudoeste de Tóquio, radiação nove vezes maior do que o nível normal também foi detectada. Na capital do país, os níveis estariam acima do normal, mas sem apresentar riscos à saúde, segundo o governo.

Cerca de 800 funcionários da usina também foram retirados do local, segundo a Tepco. Outros 70 continuam trabalhando para tentar conter o desastre.

Segundo o presidente da Autoridade Francesa de Segurança Nuclear (ASN), André-Claude Lacoste, o acidente nuclear de Fukushima alcançou um nível de gravidade maior do de Three Mile Island, em 28 de março de 1979, mas não chegou ao nível de Chernobyl, de 1986.

"Está muito claro que estamos em um nível seis , que é intermediário entre o que aconteceu na ilha Three Mile e Chernobil", disse o presidente da ASN, Andre-Claude Lacoste, em Paris nesta terça-feira. De acordo com a Comissão Europeia, cenário nuclear no Japão é " apocalíptico ".

O temor de que possa haver o derretimento dos núcleos dos reatores do complexo nuclear, que fica 250 km a nordeste de Tóquio, aumentou após a explosão na manhã desta terça-feira (horário do Japão), a terceira desde o terremoto que atingiu o país há quatro dias. A explosão ocorreu no reator 2, que os engenheiros tentavam estabilizar. Outros dois reatores já haviam sofrido explosões.

O primeiro incêndio no reator 4 nesta terça-feira teria queimado barras de combustível e levado a vazamentos radioativos.

Outras explosões

Na manhã de segunda-feira, uma explosão no reator número 3 da usina deixou 11 feridos, um deles em estado grave. A explosão foi sentida a 40 quilômetros da usina e fez com que uma imensa coluna de fumaça tomasse o local. Já a primeira explosão ocorreu no sábado, quando o reator 1 teve problemas.

As explosões foram precedidas por problemas no sistema de resfriamento dos reatores, que pararam de funcionar em consequência do terremoto que atingiu o país seguido por um tsunami.

As explosões em Fukushima causaram preocupação em diversos países do mundo com suas próprias instalações. Os governos da Índia, Alemanha, Suíça e Áustria também anunciaram mudanças em seus programas nucleares.

Revisão de magnitude

Especialistas do Instituto de Geofísica dos Estados Unidos (USGS) elevaram de 8,9 para 9 a magnitude do terremoto de sexta-feira, o que o torna o quarto mais forte já registrado no mundo desde 1900, informou a instituição.

Até agora, o mais forte terremoto do Japão tinha acontecido em 1933. Com 8,1 graus de magnitude, o tremor atingiu a região metropolitana de Tóquio e matou mais de 3 mil pessoas. Os tremores de terra são comuns no Japão, um dos países com mais atividades sísmicas do mundo, já que está localizado no chamado "anel de fogo do Pacífico".

O país é atingido por cerca de 20% de todos os terremotos de magnitude superior a 6 que acontecem em todo o planeta.

Com BBC, AP e AFP

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