Novas nacionalizações reabrem debate sobre queda de investimentos na Bolívia

As novas nacionalizações anunciadas pelo presidente da Bolívia, Evo Morales, reabriram o debate no país sobre os prós e contras deste processo, que começou há dois anos. Na quinta-feira, Morales anunciou que o governo assumiu o controle da Entel, a principal companhia telefônica do país, e de outras quatro empresas de petróleo - Transredes, Andina, Chaco e CLHB.

BBC Brasil |

Nesta sexta-feira, o presidente da Câmara de Comércio e Indústria de Santa Cruz (departamento opositor ao governo de Morales), Eduardo Paz, criticou as novas nacionalizações e disse que elas poderão "afastar ainda mais" os investidores.

"Décadas atrás, a Bolívia tinha mais de 60 campos de perfuração de petróleo e de gás, e agora devem ser três ou quatro. Claro, fica todo mundo com medo de investir aqui", disse Paz.

Novos poços
Segundo dados da Câmara Boliviana de Hidrocarbonetos, que reúne as empresas do setor, a Bolívia tem registrado queda nos investimentos em exploração de gás e petróleo.

De acordo com a Câmara, atualmente a Bolívia tem três novos poços de exploração de gás e de petróleo sendo perfurados. Há dez anos, eram entre 64 e 65 por ano.

O auge desta exploração de hidrocarbonetos foi em 2000, com 90 novos poços sendo perfurados simultaneamente.

Dados da Câmara mostram que a queda nos investimentos, resultando na menor quantidade de poços explorados, começou a ser registrada em 2002.

"A partir dali, a proposta de nacionalização do gás virou tema das campanhas eleitorais", disse à BBC Brasil o ex-secretário de Energia e de Hidrocarbonetos Carlos Alberto Lopez, que esteve no governo entre 1998 e 2002 e hoje é consultor energético em La Paz.

"E este fato político gerou preocupação nos investidores e está diretamente ligado à queda na exploração e nos investimentos", afirmou.

Pelos dados da Câmara de Hidrocarbonetos, em 1998 foram investidos US$ 600 milhões (cerca de R$ 987 milhões) na área de perfuração e produção.

Em 2007, este montante foi de US$ 150 milhões (cerca de R$ 247 milhões).

Segundo a assessoria de imprensa da Petrobras, a empresa investiu sozinha US$ 50 milhões (R$ 82 milhões) em 2003 e US$ 21 milhões (R$ 34 milhões) em 2007.

"Processo histórico"
Nos últimos dois anos, a Bolívia nacionalizou dezenas de companhias estrangeiras, entre elas duas refinarias da brasileira Petrobras.

Morales tem dito que seu programa de nacionalização tem como objetivo conseguir "sócios e não patrões" na exploração dos recursos do país.

"Esse é um processo histórico e para o bem do povo boliviano. O tempo mostrará isso", disse o ministro de Hidrocarbonetos, Carlos Villegas.

"Não estamos fazendo um confisco, mas uma nacionalização correta", afirmou o presidente da estatal YPFB, Santos Ramírez.

A estatal passará a ter o controle destas empresas transnacionais. O governo anunciou que a nacionalização será feita a partir da compra de ações das empresas.

Exportação
Entre 2000 e 2007, a arrecadação derivada das petroleiras na Bolívia cresceu 773%, passando de US$ 180,1 milhões (cerca de R$ 297 milhões) para US$ 1,5 bilhão (aproximadamente R$ 2,5 bilhões), graças ao crescimento da produção e à alta dos preços internacionais dos hidrocarbonetos.

Mas, segundo assessores da Câmara de Hidrocarbonetos, esse incremento na arrecadação deve-se, principalmente, à maior exploração de gás para venda ao mercado brasileiro.

Até 1999, ano que começou a exportar gás para o Brasil, a Bolívia produzia cerca de 6 milhões de metros cúbicos diários de gás.

Esse volume saltou para mais de 40 milhões de metros cúbicos diários, a partir do acordo com o Brasil.

"Mas hoje, depois daquele salto, que durou até 2005, essa produção de gás está estagnada, e a de petróleo em queda", disse Lopez.

"O problema é que a demanda de gás e de petróleo está em alta (interna e externamente) e nossa preocupação é que, neste ritmo, as contas não vão fechar a partir de 2010, quando além dos 30 milhões de metros cúbicos diários para o Brasil, a Bolívia deverá mandar 27 milhões para o mercado argentino, totalizando 57 milhões", afirmou.

Lopez disse que já no ano passado a Bolívia interrompeu algumas vezes o envio de gás para Cuiabá, porque "seu cobertor está curto para atender os compromissos atuais".

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