O Comitê Internacional da Cruz Vermelha anunciou nesta segunda-feira que a missão de resgate de mais um refém que as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) prometeram colocar em liberdade foi adiada, sem a definição de uma nova data. O refém - o ex-governador do departamento de Meta, Alan Jara - deveria ser libertado nesta segunda-feira.

"Hoje, não há saída (da missão de resgate)", disse Ives Heller, do Comitê Internacional da Cruz Vermelha.

"Estamos em contato com a comissão (humanitária), com o governo, com os contatos indiretos das Farc", acrescentou. "É um contato construtivo, positivo, e faremos todo o possível para levar a cabo essas libertações."
Pouco antes do anúncio da Cruz Vermelha, o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, voltou atrás e autorizou a participação da senadora esquerdista Piedad Córdoba na missão de resgate.

Uribe havia proibido a participação da senadora na missão humanitária, limitando o acesso apenas à Cruz Vermelha e ao apoio logístico brasileiro para negociar a libertação de Jara e do deputado Sigifredo López, que seria solto pelas Farc na próxima quarta-feira.

"O presidente da República aceitou a solicitação do Comitê Internacional da Cruz Vermelha para que a senadora Piedad Córdoba acompanhe esse entidade na libertação dos seqüestrados", afirma um comunicado da Presidência colombiana emitido na manhã desta segunda-feira.

"O governo faz isso por solidariedade com as famílias e com os seqüestrados", acrescenta o documento.

Proibição
Uribe, no entanto, não permitiu que os jornalistas Jorge Botero e Daniel Samper, que integram o movimento Colombianos pela Paz e cobriram o último resgate de reféns das Farc, no domingo, participem novamente da missão civil de negociação para a libertação dos seqüestrados.

No domingo, Botero afirmou que o Exército colombiano rompeu os termos do acordo de libertação ao sobrevoar o local do resgate no momento em que a missão humanitária se encontrava com o grupo de guerrilheiros que entregaria os reféns - os policiais Juan Fernando Galicia, José Walter Lozano Guarnizo e Alexis Torres Zapata e o soldado William Giovanni Domínguez.

"Isso gerou preocupação e alarme, tanto em nós como nos guerrilheiros", afirmou Botero em entrevista à emissora de televisão Telesur. "A operação esteve à beira da morte e de regressar com as mãos vazias."
De acordo com o jornalista, a missão teve que se deslocar a outro ponto da selva colombiana, onde os reféns teriam sido finalmente libertados, por volta das 15h (18h de Brasília).

Logo após a libertação, o presidente colombiano anunciou a decisão de não permitir a mediação da missão civil.

"A necessidade humanitária de libertar os seqüestrados tem sido usada, contra o que está acordado, como incitação e estímulo ao grupo seqüestrador, narcotraficante e terrorista das Farc", afirmou Uribe na madrugada desta segunda-feira.

Acorrentados
A missão de resgate de domingo foi a terceira libertação unilateral de reféns das Farc desde janeiro de 2008.

O movimento sofreu duros golpes em 2008, como a morte de importantes líderes e a deserção de vários guerrilheiros, indicando que a organização estaria perdendo força.

O movimento Colombianos pela Paz foi encarregado de estabelecer um diálogo com a guerrilha por meio de cartas. Assim se chegou ao acordo para a libertação dos seis reféns desta semana.

"As libertações são o caminho mais curto para ir acabando com o conflito, e o governo deveria rever sua estratégia da via armada e pensar em estabelecer um canal de diálogo", afirma Ivan Cepeda, representante do movimento.

Os oficiais libertados chegaram na noite do domingo a Villavicencio (sul da Colômbia), onde foram recebidos pelos movimento Colombianos pela Paz e por dezenas de jornalistas.

Em um relato semelhante aos depoimentos de outros reféns libertados pelo grupo guerrilheiro, o policial Walter José Lozano afirmou que as Farc mantêm os reféns acorrentados no cativeiro.

"São lamentáveis as condições em que as Farc mantêm os sequestrados: amarrados, pior do que se fôssemos animais, acorrentados no pescoço", afirmou Lozano, logo após ser libertado. "Não temos mobilidade para além de três metros."

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