O Papa Bento XVI pediu ao mundo que governe a globalização, na terceira encíclica de seu pontificado, Caritas un Veritate (Caridade na Verdade), apresentada nesta terça-feira, na véspera da reunião de cúpula dos oito países mais ricos do mundo (G8) em LAquila (centro da Itália).

"Para governar a economia mundial, para sanear as economias afetadas pela crise, para prevenir seu agravamento e maiores desequilíbrios consequentes, para alcançar um oportuno desarmamento integral, a segurança alimentar e a paz (...) urge a presença uma verdadeira Autoridade política mundial", afirma o Sumo Pontífice em sua terceira encíclica, a primeira de cunho social, "Caritas in Veritate".

"Esta Autoridade deverá estar regulada pelo direito, ater-se de maneira concreta aos princípios do subsídio e de solidaridade, estar ordenada à realização do bem comum", afirma o texto de 150 páginas.

"Diante do incessante aumento da interdependência mundial e também na presença de uma recessão de alcance global, se sente muito a urgência da reforma, tanto da Organização das Nações Unidas como da arquitetura econômica e financeira internacional", destaca o Papa.

No texto doutrinal, o Pontífice reconhece a necessidade "um grau superior de ordenação internacional do tipo subsidiário para o governo da globalização, para que finalmente se alcance uma ordem social conforme a ordem moral".

A aguardada terceira encíclica do Papa alemão foi publicada um dia antes da abertura em L'Aquila da reunião de cúpula do G8, que terá a presença de quase 30 chefes de Estado e Governo, incluindo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A nova encíclica é interpretada como uma mensagem clara aos líderes dos países ricos e das economias emergentes, que são citados nas análises.

Bento XVI, conhecido por suas posições tradicionalistas, aborda desta vez graves e importantes problemas sociais, morais e éticos do mundo moderno para condenar o "egoísmo, a cobiça e a falta de solidariedade".

"O exclusivo objetivo do lucro, sem o bem comum como fim último, ameaça destruir a riqueza e criar pobreza", escreve.

Também analisa "as distorções" do desenvolvimento, como a atividade "especulativa" financeira, os fluxos migratórios "provocados" e o aproveitamento "não regulado" dos recursos da terra.

"A crise nos obriga a revisar nosso caminho, a estabelecer novas regras e a encontrar novas formas de compromisso", reconhece.

"A economia tem necessidade da ética para seu correto funcionamento, não de uma ética qualquer, e sim de uma ética amiga da pessoa", afirma o Papa.

O texto aborda a necessidade de construir novas regras para uma economia cada vez mais globalizada e pede que os mais pobres do planeta sejam levados em consideração.

Cópias da encíclica - traduzida a vários idiomas e também ao latim - serão enviadas aos líderes mundiais reunidos em L'Aquila.

No documento, o Papa analisa a "Populorum Progressio" (1967) de Paulo VI e a "Centesimus Annus" (1991) de João Paulo II, com o objetivo de examinar as últimas fases do deteriorado capitalismo global.

Bento XVI, cujo pontificado começou em 19 de abril de 2005, publicou sua primeira encíclica em 25 de janeiro de 2006, sobre a caridade e o amor divino, com o título em latim "Deus caritas est", e a segunda em 30 de novembro de 2007, "Spes salvi", sobre a esperança cristã.

Para elaborar o novo texto, o Papa consultou vários especialistas, entre eles vários economistas, teólogos e prelados.

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