Nova comissária da UE vai manter Mercosul na geladeira

Aprovada nesta quarta-feira pelo Parlamento Europeu para substituir Peter Mandelson na pasta de Comércio da Comissão Européia (o órgão executivo da União Européia), a baronesa britânica Catherine Ashton já deixou claro que as negociações para um acordo entre a União Européia e o Mercosul continuarão dependendo da conclusão da Rodada de Doha durante seu mandato. Estou disposta a retomar as negociações com esse grupo de países, mas temos que ver primeiro o que acontece com Doha, disse Ashton aos deputados durante uma sabatina de três horas nesta semana.

BBC Brasil |

Lançadas em 1999, as negociações entre a União Européia e o Mercosul não avançam desde 2004 devido a impasses nos capítulos industrial e agrícola.

Ainda assim, Ashton descarta a possibilidade de optar por uma negociação bilateral com o Brasil, que muitos parlamentares europeus consideram mais vantajosa e mais fácil de ser concluída.

Segundo a nova comissária, "é importante trabalhar estreitamente com o Brasil", mas dentro das negociações com o Mercosul, "que é claramente a forma como (o país) prefere fazer".

Doha
Assim como Mandelson, que renunciou ao posto de comissário de Comércio para assumir uma pasta no governo britânico, a baronesa anunciou que dará prioridade à retomada e conclusão da rodada da OMC (Organização Mundial do Comércio).

Por isso, quer que sua primeira missão oficial seja uma reunião com o diretor-geral da organização, Pascal Lamy, "para reafirmar que o sucesso de Doha continua, decididamente, no centro da política comercial da União Européia".

No entanto, questionada sobre o que teria feito diferente de seu antecessor para evitar o "fracasso" da rodada no final de julho, em Genebra, Ashton foi evasiva.

"Doha ainda não acabou. Levamos sete anos negociando, o que está dentro dos padrões para esse tipo de acordo. (A rodada do) Uruguai levou oito anos", ressaltou.

Ashton também foi evasiva ao responder se permitiria que as últimas propostas consideradas na rodada fossem mudadas a fim de "dissipar o medo de pequenos agricultores que sobrevivem à margem" do sistema.

"Espero que os resultados (de Doha) signifiquem uma agricultura aberta e transparente, que inclua as reformas de 2003 da política agrícola comum (européia)", respondeu, referindo-se à mudança legislativa que determinou o corte gradual dos subsídios agrícolas oferecidos pela União Européia.

Experiência
Aos 52 anos, Ashton chega ao Executivo da União Européia depois de ter presidido a Câmara dos Lordes britânica, cargo para o qual foi indicada pelo primeiro-ministro Gordon Brown em 2007. Antes, integrou o Ministério de Justiça e Direitos Humanos.

Sua falta de experiência em cargos relacionados ao comércio suscitou críticas e questionamentos por parte de muitos parlamentares europeus, especialmente entre os conservadores britânicos.

"O comissário europeu de Comércio é a figura mais importante do mundo no que diz respeito a intercâmbios mundiais. Olhando seu currículo, observamos que não há nenhuma experiência relevante nessa área", criticou o líder da bancada dos conservadores britânicos, Nigel Farage.

A baronesa reagiu dizendo que a aprovação do Tratado de Lisboa na Grã-Bretanha é atribuída a sua atuação à frente da Câmara dos Lordes e afirmou que seu passado comprova que é "uma negociadora experiente, que sabe construir pontes".

Apesar de admitir que não tem experiência em agricultura - uma área crucial nas negociações comerciais da União Européia -, Ashton ressaltou que pretende trabalhar em parceria com a comissária da área, Mariann Fischer-Boel, e que conta com "uma equipe de profissionais com muita experiência" para assessorá-la.

A sabatina foi o suficiente para convencer 538 deputados a votar a seu favor, contra 40 votos negativos e 63 abstenções.

Para o Partido Socialista, a segunda maior bancada do Parlamento Europeu, a nova comissária "mostrou ter um domínio impressionante de uma pasta complexa".

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