Nosso banco, nossa alma

Na quarta-feira, dia 26, tendo acabado de fazer cinco pontos no múltipla escolha do sistema de medicina inglês, resolvi não faltar ao compromisso que mesmo antes da gripe, resfriado, pneumonia, infecção bronquial e reação alérgica que, nas últimas 3 semanas, me foram diagnosticados por dois médicos do sistema nacional de saúde britânico e três particulares, sendo que um deles francês de boa cepa e que vem tirar o pulso da gente em nossa casa mesmo mediante quantia módica. Qual compromisso? Um amigo meu, banqueiro de alto escalão, cujo nome e instituição bancária lidera com brilho e aisance típicos dos grandes nomes da nobre profissão, e que tanto ele quanto o banco deverão ter seu nome mantido no anonimato por motivos óbvios que dizem respeito apenas a mim, a ele e a 300 outros banqueiros, já havia me convidado, há bem umas 4 semanas, para uma noitada de gala nos luxuosos salões e restaurante do Dorchester Hotel, ali mesmo beirando Park Lane.

BBC Brasil |

A ocasião era das mais faustosas: comemorar-se-ia, e em grande estilo, claro, a noitada dos Prêmios Bancários de 2008. 300 representantes dos maiores bancos do mundo estariam presentes para celebrarem os feitos deles próprios e de seus colegas.

A ocasião era black-tie e prometia-se um suntuoso jantar além de bebida jorrando a noite inteira.

Não sou o que já se chamou por aí de "boca livre", "fominha" ou "furão". Acontece que 3 semanas de gripe, resfriado etc deixaram-me algo embrutecido e louco para sair de casa e estar com gente portando não só saúde mas aquele inefável charme dos 10, 12 ou 15% e não 39 graus de febre e nariz escorrendo.

Meu amigão me emprestou o black-tie e o resto dos apetrechos que com ele vão, e, lá pelas 8 da noite, bem agasalhado (eram 4 graus lá fora da stretch limo pelo companheiro especialmente alugada para a ocasião) apesar da calefação do carro, tomamos, já de taça de champanha em riste, o rumo do Dorchester.

Danem-se os antibióticos, disse para mim mesmo, como quem reza baixinho uma oração. Afinal, eu fiz ou não fiz cinco pontos na loteria médica inglesa?
Confesso que sou um estranho a essas ocasiões, essas festividades. Os muito ricos, conheço-os apenas de página de revista, passagens rapidíssimas e, de certa feita, sentado muito do sem jeito por alguns minutos com um ou dois no Relais do Plaza-Athenée, em Paris, lá pelos anos 70.

Impossível negar que eles não tenham em doses cavalares aquilo que o vulgo (entre o qual me incluo) gosta de chamar de carisma. Nada mais carismático que os eflúvios por eles emitidos.

Foi a primeira coisa que notei, quando entrei no salão. O aroma, o olor, o cheiro.

Era uma mistura embriagadora de finos perfumes, sabonetes raros, couro do melhor, uísque de meio malte e, que me perdoem esbarrar na blasfêmia, flores que só em igreja ou cemitério chega às nossas narinas pouco educadas.

As mãos dos banqueiros davam vontade de pegar e levar à boca, como um sedutor canapé bolado por um demônio envolvente.

Mãos rosadas, macias, tratadas como se animais raros em vias de extinção.

Sorriam todos. Sorrisos transparecendo não só alegria mas ternura e amizade por seus semelhantes ali presentes.

Eu não tinha 15 minutos de noitada e já fôra tratado com mais do que boas maneiras.

Fizeram com que eu me sentisse um rei. Os ricos sabem fazer dessas coisas. Não, definitvamente, não era febre de minha parte.

Farei baixar um véu de discrição sobre a beleza e a classe das mulheres. Mesmo as que eram visivelmente oriundas do "mundo em desenvolvimento", conforme se dizia no recinto depois da 5ª. taça.

Todos os perfumes da Arábia ali estavam mesclados e presentes, para fazer uma alusão ao Bardo Imortal, que a ocasião bem que o merecia ali.

Stephen me informou que "todo mundo que era alguém no mundo bancário" estava ali presente.

Stephen. Olhem só eu pegando intimidade indevida. Pura ressaca de pobre. Stephen é Stephen Timewell, editor-chefe da revista Banker, responsávvel pela auspiciosa ocasião.

Stephen informou-me ainda, com aquele seu jeito bonachão e charmoso, que ali, naquele hotel, naquela noite, estavam reunidos "notáveis" do mundo bancário procedentes de 116 países.

Presentes inclusive todos os principais bancos britânicos, entre eles o Royal Bank of Scotland e o HSBC.

Isso é saber se comemorar. Isso é saber dizer adeus a um ano de travo amargo que se vai.

O grande momento a coroar o excepcional evento foi quando revelou-se que o prêmio de "banco global do ano" foi para o banco europeu, sediado em Paris, que nós todos conhecemos pelo nome de BNP Paribas.

Nada me pareceu mais justo, principalmente tendo em vista que eu já passara, depois da mousse de kiwi, para o Valium com Glenlivet ao natural.

O Banco Santander, que este ano mesmo, ora crepusculando, absorveu as miudezas do banco Alliance & Leicester, assim como a parte da poupança do também muito popular, por aqui, Bradford & Bingley, curiosamente, mas aí não me julgo mais plenamente responsável por minhas afirmações, venceu na categoria de "melhor banco sul-americano".

Gozado, apesar de saber que, como todos os bancos, seus deliciosos tentáculos de seda se estendiam ao mundo inteiro, pois assim é a regra do jogo, gozado, repito, levando o guardanapo à testa (este calor, estas luzes a tanto brilhar!), mas o Santander não é espanhol em sua essência, sotaque e jeito de ser?
Finalizando numa nota de rara justiça: o prêmio por "lifetime achievement", como distribuem no Oscar, e o Hitchcock um dia pegou o dele lá, foi para Ibrahim Dabdoub, principal executivo do Banco Nacional do Kuwaite.

Parabéns, Ibrahim! Parabéns, Kuwaite!
Por hoje, stop e ademã. Olho vivo que cavalo não sobe escada.

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