Norueguês diz haver mais duas células militantes em sua organização

Após audiência judicial de acusado, juiz anuncia que polícia investiga declaração; Breivik ficará sob custódia por 8 semanas

iG São Paulo |

A polícia norueguesa está investigando a afirmação feita pelo norueguês Anders Behring Breivik, de 32 anos, de que tem mais duas células militantes em sua rede terrorista, anunciou nesta segunda-feira Kim Heger, juiz que presidiu a primeira audiência do acusado pelo massacre de sexta-feira em Oslo e na Ilha de Utoya, na Noruega, na sexta-feira.

Em coletiva posterior à audiência , autoridades policiais disseram que Breivik pareceu se contradizer com essa afirmação, já que em depoimento após ser preso afirmou que havia atuado sozinho no duplo atentado . A polícia, porém, rejeitou divulgar informações sobre a investigação sobre as outras supostas células, dizendo que a audiência foi fechada para não revelar informações de provas. 

Reuters
Norueguês Anders Behring Breivik, homem acusado pelo massacre na Noruega, é visto dentro de veículo ao deixar corte onde teve sua primeira audiência em Oslo

Na sessão judicial, Breivik fez alusão a outras "células" em uma rede que descreveu como os novos  Cavalheiros Templários - uma ordem medieval fundada para proteger os peregrinos cristãos na Terra Santa depois da Primeira Cruzada. Um manifesto de 1,5 mil páginas atribuído ao extremista e postado horas antes dos ataques menciona brevemente a intenção de contatar duas outras células - termo que diz se referir a "grupos pequenos e autônomos" liderados por comandantes individuais. Também se acredita que Breivik postou um vídeo na sexta-feira resumindo seus argumentos. No final da gravação, o vídeo o mostra em um uniforme militar, segurando uma arma de assalto.

Por decisão da Justiça, a audiência de 35 minutos ocorreu a portas fechadas - sem a presença do público ou da imprensa. Grupos e familiares das vítimas tinham pedido que a imprensa boicotasse a aparição, temendo que Breivik a usasse como plataforma para propagar suas opiniões extremistas .

De acordo com as autoridades policiais, a audiência foi fechada pela "preocupação de revelar muita informação" sobre o caso. "Uma das razões é que pensamos que outras pessoas podem estar implicadas ", disseram. Os oficiais, porém, negaram que um suspeito do caso tivesse sido preso na Polônia. A informação de que um cidadão polonês teria sido preso pela polícia da Cracóvia, no oeste polonês, havia sido divulgada pela televisão norueguesa TV 2. Segundo os policiais, continuam as investigações sobre os possíveis vínculos de Breivik com a Polônia.

Na sessão, Breivik rejeitou a responsabilidade criminal pelos ataques argumentando que queria salvar a Noruega e a Europa Ocidental do "marxismo cultural", mesma expressão usada no manifesto. De acordo com o juiz, o acusado justificou suas ações afirmando que o massacre foi necessário para evitar que a Europa seja tomada por muçulmanos. De acordo com o promotor Christian Hatlo, o radical disse que esperava passar o resto de sua vida na prisão.

O extremista norueguês também declarou que seu principal objetivo era prejudicar o Partido Trabalhista, que acusou de encorajar a imigração. Segundo o juiz, Breivik disse que a legenda governista é culpada da "importação em massa" de muçulmanos. "O Partido Trabalhista tinha de pagar um preço por sua traição; muçulmanos estavam aqui para colonizar o país", disse Breivik, citado pelo magistrado. 

"A operação não tinha o objetivo de causar o maior número de mortes possível, mas emitir um forte sinal que não pudesse ser confundido de que, enquanto o Partido Trabalhista continuar levando adiante suas mentiras ideológicas e desconstruindo a cultura norueguesa e importando muçulmanos em massa, terá de assumir a responsabilidade por sua traição", disse o radical cristão, segundo o juiz. Ele também reiterou as declarações dadas à polícia no fim de semana de que é autor do dia que chocou a pacífica Noruega e representou o mais mortal para o país desde a Segunda Guerra Mundial .

O juiz indiciou o acusado por atos de terrorismo, anunciando que o extremista ficará sob custódia por oito semanas, das quais quatro em total isolamento. De acordo com o magistrado, a promotoria pediu essa medida pelo risco de perda de provas e pela "extensão e característica" do caso. Assim, o autor presumível dos atentados ficará em completo isolamento até 22 de agosto, o que representa não poder receber cartas, visitas ou usar a mídia.

Segundo o juiz, a data da principal audiência sobre o caso será definida depois que a polícia concluir a investigação. De acordo com a lei norueguesa, Breivik pode ser sentenciado a um máximo de 21 anos de prisão. A sentença pode ser estendida se o prisioneiro for considerado uma ameaça à segurança pública. 

Ao canal de TV norueguês TV 2, o pai de Breivik disse que seu filho deveria ter se matado em vez matar tantas pessoas . "Ele deveria ter se suicidado antes de matar tanta gente", afirmou Jen Breivik, de Cournanel, no sul da França, onde vive desde que se aposentou.

Número revisto

Em sua coletiva, a polícia da Noruega anunciou que revisou o número de mortos pelo ataque que durou 90 minutos na Ilha de Utoya , a 40 quilômetros de Oslo. Segundo fontes policiais, a nova cifra é de 68, uma diferença de 18 em relação à divulgada no domingo, de 86. Menos de duas horas antes da ação na ilha, o extremista é suspeito de ter plantado uma bomba no centro político da capital , que deixou ao menos oito mortos. Assim, o total de mortos no ataque foi corrigido de 93 para 76. 

AP
Multidão se aglomera em frente a tribunal em Oslo, capital da Noruega, onde suspeito de ataques tem primeira audiência

Homenagem

A população da Noruega fez um minuto de silêncio ao meio-dia desta segunda-feira (7h de Brasília) em homenagem aos mortos no duplo atentado. O ato paralisou o centro da capital escandinava e foi liderado pela família real norueguesa e o primeiro-ministro do país, o trabalhista Jens Stoltenberg, em uma solenidade em frente ao prédio central da Universidade de Oslo.

Mais tarde, ao menos 100 mil se reuniram com flores nas mãos no centro de Oslo para uma vigília pacífica em homenagem às vítimas do ataque duplo. Segundo a imprensa local, a mobilização populacional foi sem precedentes na história do país.

As ruas de Oslo foram fechadas para circulação para serem palco da manifestação, cujo objetivo foi repudiar a doutrina de ódio anti-imigrante de Anders Behring Breivik, autor presumível do massacre de sexta-feira. “As ruas estão cheias de amor", dise o príncipe da Coroa da Noruega, Haakon, à multidão.

Balas destruidoras

Funcionários que trataram vítimas em hospitais disseram que o atirador, no ataque à Ilha de Utoya, teria usado balas que se fragmentam dentro do corpo , causando sérios danos internos. Uma das primeiras pessoas assassinadas teria sido um policial, contratado como segurança pelos organizadores do encontro, do qual participavam cerca de 700 pessoas, em sua maioria jovens e adolescentes.

A polícia justificou a demora para chegar ao local do ataque dizendo que foi difícil encontrar um barco apropriado para o transporte e que não havia qualquer helicóptero da polícia por perto.

Com AP, BBC, AFP e EFE

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