Nobel da Paz para dissidente é "obscenidade", diz China

China bloqueia informações sobre prêmio na internet e impede entrada de jornalistas na casa de mulher de Liu Xiaobo

iG São Paulo |

O governo da China condenou fortemente a concessão do Prêmio Nobel da Paz nesta sexta-feira para o dissidente chinês Liu Xiaobo , que está preso, qualificando-a de "uma obscenidade" que vai contra os objetivos da premiação.

A decisão vai prejudicar as relações sino-norueguesas, diz um comunicado do porta-voz do Ministério de Relações Exteriores da China, Ma Zhaoxu, colocado em seu website, www.mfa.gov.cn. "Esta é uma obscenidade contra o prêmio da paz", disse Ma, afirmando que o Comitê do Nobel violava seus próprios princípios ao honrar um "criminoso".

Para oficializar seu descontentamento, o Ministério de Relações Exteriores da China convocou o embaixador da Noruega em Pequim.

Após o anúncio do vencedor, a mídia estatal chinesa imediatamente impediu a divulgação da notícia, enquanto os censores do governo bloquearam informações sobre a premiação nos sites da internet. Além disso, guardas de segurança impediram a entrada de jornalistas na casa do mulher do ativista em Pequim.

Segundo o advogado Teng Biao, pelo menos 20 dissidentes chineses que tinham se reunido em diferentes partes de Pequim para comemorar a concessão do Nobel a Liu foram detidos.

O governo chinês vinha advertindo contra a premiação de Liu há um mês. O país também criticou duramente Oslo depois que o prêmio de 1989 foi dado ao líder espiritual do Tibete, Dalai Lama .

O chanceler norueguês, Jonas Gahr Stoere, reagiu às declarações da China afirmando que a premiação de Liu não deve causar uma reação hostil de Pequim a seu país. "Não há motivos para dirigir qualquer medida contra a Noruega como país, e acho que haveria um efeito negativo sobre a reputação da China se ela assim agisse", disse Stoere a uma TV local.

Stoere também afirmou que o Comitê do Nobel é uma entidade independente do governo da Noruega, que atualmente negocia um tratado comercial bilateral com Pequim. Em nota, o primeiro-ministro norueguês, Jens Stoltenberg, disse que "a Noruega tem uma cooperação boa e abrangente com a China" e "a discussão dos direitos humanos é parte dessa relação". O premiê acrescentou que o governo norueguês já questionou várias vezes as autoridades chinesas a respeito da situação de Liu.

A Noruega é um dos maiores exportadores mundiais de gás e petróleo, e tem interesse em ampliar sua cooperação energética com a China, uma potência econômica em rápida ascensão.

Dissidente chinês

Poeta e professor de literatura de 54 anos, Liu cumpre uma sentença de 11 anos por "incitar a subversão ao poder do Estado", após assinar um manifesto em 2008 no qual defende uma reforma democrática na China. Liu foi escolhido entre 237 nomeados e tem direito a um cheque no valor de US$ 1,6 milhão, aproximadamente R$ 2,68 milhões.

Liu receberá o prêmio "por seu longo trabalho não violento em favor dos direitos humanos na China", disse a comissão de premiação. "O comitê Nobel deliberou largamente antes de tomar essa decisão, que relaciona os direitos humanos e a paz."

"Nas últimas duas décadas, Liu Xiaobo foi um grande porta-voz em favor da aplicação dos direitos fundamentais na China", afirmou a instituição, que lembrou a participação do ativista no protesto da Praça da Paz Celestial de 1989, em Pequim, reprimida pelo regime chinês. O dissidente participou, além disso, de diversas manifestações públicas de artistas e ativistas em favor dos direitos humanos na China.

AP
Guardas de segurança impedem jornalistas de entrar no apartamento onde Liu Xia, mulher do Prêmio Nobel da Paz Liu Xiaobo, fica em Pequim
Concedido desde 1901, o Prêmio Nobel da Paz é um dos cinco prêmios instituídos em seu testamento pelo químico e industrial sueco Alfred Nobel (1833-1896). Ele é escolhido anualmente pelo Comitê do Nobel da Noruega, formado por cinco pessoas nomeadas pelo Storting, o Parlamento norueguês. Entre os vencedores do Nobel da Paz estão nomes como Al Gore, Kofi Annan, Yasser Arafat e Nelson Mandela . No ano passado, quem venceu foi o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama.

Nos últimos dias foram divulgados os vencedores nas categorias de Medicina , para o britânico Robert G. Edwards; de Física , dividido pelos russos Andre Geim e Konstantin Novoselov; de Química , para o americano Richard Heck e os japoneses Ei-ichi Negishi e Akira Suzuki; e de Literatura , para o escritor peruano Mario Vargas Llosa. A rodada de anúncios se encerra na próxima segunda-feira, quando será comunicado o vencedor de Economia.

*Com Reuters, AP e EFE

    Leia tudo sobre: prêmio nobelnobel da pazchinaLiu Xiaobonoruega

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG