No melhor sentido 

A gringa-brasileira Alexandra Elman, aos 39 anos, é uma mulher bonita, destas de chamar atenção. Hanley, o labrador amarelo, também atrai olhares de admiração.

BBC Brasil |

Mais do que melhor amigo, ele é o companheiro indispensável. Alexandra tinha nove anos e em apenas três meses perdeu quase vinte quilos. Diabetes.

Ajustou-se e foi levando a vida. Estudou relações internacionais na Boston University, mas se interessou por vinhos e logo depois de formar foi trabalhar na França com os fabricantes do champagne Perrier-Jouet, aquela da garrafa florida.

Quando voltou para Nova York foi para a Sherry Lehmann, uma das melhores casas de vinho da cidade. Trabalhava no departamento de vendas.

Eu conhecia a mãe de Alexandra, Dorothea Elman, que era famosa em dois círculos novaiorquinos - do desenho gráfico e da culinária. O crítico do New York Times deu a ela uma página deslumbrada sobre as recepções no apartamento do Central Park e suas receitas brasileiras, em especial a da feijoada.

Por causa dessa matéria encontrei Dorothea, que hoje está conhecida noutro circuito, o da auto-ajuda, e foi ela quem me falou sobre a filha Alexandra.

Um dia ela estava lendo um catálogo de vinhos na Sherry quando tudo escureceu, como se alguém tivesse apagado a luz. Os olhos estavam cheios de sangue. Em poucos dias estava completamente cega, com um grande casamento marcado para dali a três meses.

Casou. Logo depois bateu a depressão e, em menos de um ano, veio a separação do primeiro marido (o segundo durou cinco anos, agora está num namoro firme).

Saiu da fossa e foi trabalhar como provadora com o padrasto, Basil Winston, especialista em vinhos raros. Com ele apurou ainda mais o olfato que já era bem educado, desde criança cercada de boa comida e bons vinhos.

Alexandra acha que todos outros sentidos ficam mais desenvolvidos quando você perde a visão. Ela distingue os vinhos pelas uvas, regiões de origem e às vezes acerta os anos das safras.

Hoje tem a própria empresa, Marble Hill Cellars, e se você entrar no site (http://www.marblehillcellars.com ou no blog http://marblehillcellars.blogspot.com) vai ver a lista dos vinhos dela, na maioria espanhóis. A Galícia, ainda mal conhecida, é uma de suas regiões preferidas.

Alexandra viaja com freqüência para comprar seus vinhos. Procura pequenas vinícolas que não produzem mais do que 5 mil caixas por ano e usam métodos artesanais, mas está assombrada com o tamanho do euro e vai para a Argentina em busca de novas fontes.

Ela já passou por seis cirurgias nos olhos e um transplante de rins e pâncreas, que lhe salvou a vida e acabou com a diabetes (o substantivo é masculino e feminino). Na ginástica é uma obstinada, e faz um tipo de ioga tão extravagante que recentemente rompeu um músculo, o glúteo médio, disse ela, corada de vergonha. Fica na bunda.

Nova York, com o sistema de ruas e avenidas paralelas, é uma cidade fácil para cegos. Alexandra costuma andar nestas bicicletas para dois ciclistas, cozinha bem, esquia, curte cinema, televisão, música, tem um computador que fala, ouve livros, mas não vai mais ao bale. Ainda não inventaram bale para cego, diz ela.

A cegueira dela é total, mas existe a possibilidade de enxergar de novo com mini-câmeras inseridas nos olhos, que estimulam a retina e enviam impulsos pelo nervo ótico. O problema tem sido os fios, que ficam corroídos em apenas quatro ou cinco dias.

Depois da nossa conversa, na rua 42, ela saiu com o comportadíssimo Hanley numa caminhada firme em direção à 57, subindo a Sétima avenida, sem vacilar no sentido.

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