No Iraque, ministra da Mulher joga a toalha e conta sua frustração

Quando foi nomeada secretária de Estado para Assuntos femininos, Nawal al-Samarraï iniciou o trabalho com entusiasmo. Seis meses mais tarde, esgotada por tantos empecilhos ao desenvolvimento de seu trabalho, ela pediu demissão e denunciou o pouco caso que o governo iraquiano faz das mulheres.

AFP |

"Sou uma pessoa voluntariosa, obstinada. Estava convencida de que poderia conseguir avanços para a condição das mulheres, mas tive de lidar com grandes obstáculos", afirmou à AFP em uma sala do hotel Rachid, na "zona verde" em Bagdá, onde inúmeros dirigentes do governo e deputados vivem, cercados de segurança.

"A ocupação, o terrorismo, a economia em decadência... Tudo isso levou a um exército de viúvas, ao aumento do número de divorciadas, de mulheres solteiras, pedintes", acrescentou, com um véu na cabeça e expressão séria.

Segundo o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICR), de um a três milhões de mulheres estão hoje sozinhas no comando de suas casas no Iraque, em razão dos conflitos dos últimos dez anos.

"A sociedade está desabando, e eu, eu era ministra num ministério sem recursos, sem poder, sem representantes na província", disse Samarraï, acrescentando que seu orçamento mensal era de 7.500 dólares, sem contar os salários dos colaboradores.

"Como trabalhar? Eu protestei, eu insisti. Nenhum dos meus pedidos foi atendido e, quando o foram, o foram parcialmente", afirmou.

Nomeada em julho de 2008, esta ginecologista de 47 anos, ex-membro da comissão de saúde do Parlamento, renunciou no dia 3 de fevereiro.

Consciente da dificuldade de defender uma causa considerada pequena em um país conservador e que acaba de sair da guerra, ela disse que suas demandas eram coerentes.

"Se eu estivesse reivindicando igualdade entre homens e mulheres nestas circunstâncias, poderiam ter me dito 'não está na hora'. Mas tudo o que peço é uma solução para as viúvas, as presidiárias, as mendigas, as vítimas de violências e as desabrigadas", explicou.

"A questão das mulheres não é uma prioridade para o governo. Mas se as mulheres fossem ajudadas, acho que a metade dos problemas sociais seria resolvida", disse ela, mãe de cinco filhos, destacando que apenas uma pequena parte das mulheres que perderam seu marido recebe uma pensão de quase 60 dólares por mês.

Samarraï disse que estas mulheres são particularmente vulneráveis e suscetíveis ao extremismo. Ela citou, assim, o caso da "mãe dos fiéis", que recrutou 80 mulheres para cometer atentados suicidas.

"Recrutou professoras, médicas? Não, ela recrutou mulheres não alfabetizadas, às quais a sociedade fechou as portas ", disse.

Samarraï manifestou também preocupação com o aumento dos chamados "crimes de honra", que se somam à violência conjugal e ao assédio sexual.

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