No Haiti miserável, suíte de hotel de 'Baby Doc' custa US$ 750

Custo diário do quarto do ex-ditador é 150 vezes maior do que o valor por dia do salário mínimo do país

Vicente Seda, de Porto Príncipe, Haiti |

Sem dizer a que veio, o ex-presidente haitiano Jean Claude "Baby Doc" Duvalier, de 59 anos, chegou ao Haiti no domingo e hospedou-se em um hotel de luxo em Pétionville, no alto de uma colina, em uma suíte que custa, diariamente, US$ 750 (quase R$ 1,3 mil) - 150 vezes o salário mínimo diário do país que governou entre 1971 e 1986: US$ 5. No país mais miserável das Américas, mais de dois terços da força de trabalho está desempregada e a maioria da população vive com menos de US$ 2 por dia.

Vicente Seda
Entrada do hotel onde está hospedado o ex-ditador "Baby Doc", em Pétionville
A chegada de "Baby Doc", após 25 anos de exílio na França, aumentou ainda mais a tensão no país, que desde as eleições presidenciais, em 28 de novembro, está mergulhado em uma crise política pela indefinição de quem disputará o segundo turno.

No hotel em local de acesso complicado, “Baby Doc” tem segurança especial com patrulha da Missão de Estabilização da ONU (Minustah, na sigla em francês) e um forte esquema que impedia jornalistas de chegar ao menos ao lobby da imponente construção. “Talvez ele conceda entrevistas amanhã (nesta terça-feira), mas não se sabe onde nem o horário”, limitou-se a dizer um dos recepcionistas responsável por barrar imprensa e curiosos.

Segundo resultados oficiais do primeiro turno eleitoral, os candidatos que disputariam a segunda rodada de votação, inicialmente previsto para o domingo passado, 16 de janeiro, seriam a ex-primeira-dama Mirlande Manigat e o governista Jude Célestin. Mas partidários do terceiro colocado, o cantor Michel Martelly, não aceitaram a apuração oficial. Em protestos violentos nas ruas, denunciaram como fraude os resultados, afirmando que o governo quis beneficiar seu candidato em detrimento de Martelly.

As manifestações forçaram o governo a anunciar que revisaria a votação, medida que também foi adotada pela OEA (Organização dos Estados Americanos). Na semana passada, a instituição entregou ao governo um relatório indicando que houve manipulação dos resultados e recomendando que o segundo turno seja disputado entre Manigat e Martelly. Na segunda-feira, o secretário-geral da OEA, José Miguel Insulza, desembarcou em Porto Príncipe para discutir o relatório com as autoridades locais, e há a expectativa de que um decisão sobre a eleição seja anunciada oficialmente nesta terça.

Entre a população, parece não haver grande rejeição ao ex-presidente, que é acusado de violações sistemáticas durante os 15 anos em que esteve no poder.

A reportagem do iG abordou cinco pessoas pela rua e todas se mostraram confiantes de que, desta vez, “Baby Doc” chegou para ajudar na reconstrução do país, e não voltar a estabelecer uma violenta milícia privada que acabou por forçar sua queda após uma revolta popular, em fevereiro de 1986.

Capaz de falar cinco idiomas, o intérprete Frederik Nozil, de 40 anos, pastor que estudou teologia até no Brasil, acredita que o então jovem Duvalier, que sucedeu ao pai no poder antes de completar 20 anos, foi uma marionete de velhas autoridades entranhadas em sua administração. Mas, apesar de dizer que o ex-ditador é bem-vindo, avalia que o momento para o retorno é péssimo.

“É um momento muito ruim, porque o país precisa de muita ajuda. Com a eleição já era uma situação muito ruim, porque as pessoas protestaram quebrando vidros de carros, brigando", disse, para fazer a ressalva: "Mas claro que ele voltar é bom, porque tem muito dinheiro. Dizem que roubou muito, mas não tenho provas, só sei que saiu com muito dinheiro. Então ele poderia voltar para ajudar, construir escolas, hospitais, faculdades, ajudar a empregar as pessoas. Se ele roubou, o que é bem possível, que fique no Haiti para usar esse dinheiro ajudando as pessoas”, disse Nozil.

Na manhã de segunda-feira, o comandante do 1º Batalhão Brasileiro (Brabatt 1), coronel Ronaldo Lundgren, disse não saber qual será a reação do povo haitiano com a chegada de “Baby Doc”. “Ele chegou com passaporte haitiano emitido pelo primeiro-ministro do país. Ainda não preocupa, pois não sabemos qual será a reação do povo, mas é claro que algo vai mudar. A gente não sabe se ele tem a mesma influência, ou a mesma rejeição”, disse.

Jean Claude "Baby Doc" Duvalier nasceu em 3 de julho de 1951, em Porto Príncipe. Filho do ditador François “Papa Doc” Duvalier, assumiu o cargo do pai após sua morte, em 1971. Teve dois filhos com Michele Bennett, de quem se divorciou, e se formou em direito na Universidade do Haiti. Ele foi deposto após uma revolta popular em 1986, quando se exilou na França deixando o país em um jato militar americano.

Sua “expulsão” se deu após a milícia particular denominada “Tonton Macoutes” reprimir com violência e mortes diversos protestos contra a sua administração, que chegou a fechar escolas e universidades, além de proibir rádios de divulgar os confrontos sangrentos.

Em 2007, uma corte de Genebra chegou a bloquear parte dos US$ 6,2 milhões depositados em uma conta de Duvalier na Suíça, mas em 2010 a Suprema Corte do país determinou que os US$ 4,6 milhões previamente destinados à caridade retornassem à família do ex-ditador.

*Repórter viajou a convite do Exército brasileiro no Haiti

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