No Haiti, comer uma vez por dia é cada vez mais comum

Para muitos haitianos, ter emprego não significa poder pagar contas, manter uma família e guardar algum dinheiro. Significa simplesmente o suficiente para uma refeição por dia.

Reuters |

É o caso de Rachele Lotin, que vende camisetas numa fábrica de Porto Príncipe, onde ganha o salário mínimo (70 gourdes, ou 1,80 dólar por dia). Ela gasta toda essa quantia com o ônibus e um almoço à base de arroz, feijão, molho e às vezes um pedacinho de carne.

'Pago um total de 30 gourdes pelo transporte e compro uma refeição por 35 gourdes, que é o mais barato que eu consigo.

Não posso nem comprar um suco porque tudo o que sobra são 5 gourdes', disse Lotin, de 45 anos.

A história dela ilustra o impacto de uma crise alimentar que vem agravando os problemas do Haiti, o país mais pobre das Américas. O Programa Mundial de Alimentos (PMA) da ONU estima que 66 por cento dos haitianos vivam com menos de um dólar por dia e que 47 por cento sejam desnutridos.

Lotin, que é viúva, contou que seus cinco filhos passam o dia inteiro sem comer, e que para alimentá-los ela depende da ajuda de um primo que vive nos Estados Unidos.

'Recebo 50 dólares de vez em quando do meu primo, que tem muitos outros parentes para ajudar', disse Lotin, que de manhã toma só um café preto e à noite belisca qualquer coisa para conseguir dormir.

O desemprego no Haiti supera os 60 por cento. Para os que estão empregados, muitas vezes o trabalho é apenas uma forma de não precisar mendigar a ajuda de parentes e amigos. Mas, em alguns casos, ter emprego traz alguns problemas.

'Venho trabalhar porque pelo menos sei que vou comer durante o dia, mas é uma dor-de-cabeça, porque os outros esperam que você ajude quando sabem que você está empregado', disse Adonis Gerard, 43 anos. 'Às vezes eles ficam loucos, porque acham que você tem e não quer dar [ajuda].'

Mas Gerard conta que se sente mal ao receber a comida no trabalho, por saber que seus três filhos passam fome e não sabem se o pai conseguirá levar comida para casa no final do dia.

Cerca de 24 por cento das crianças haitianas sofrem de desnutrição crônica, e 9 por cento têm desnutrição aguda, segundo o PMA.

Sob pressão dos sindicatos, o governo recentemente sugeriu aumentar o salário mínimo para 150 gourdes por dia (cerca de 4 dólares). A medida, que ainda precisa passar no Parlamento, enfrenta resistência dos empresários, alegando que isso geraria mais desemprego e provocaria uma onda de falências.

'Não estamos preparados para pagar mais do que 90 gourdes (2,40 dólares) por dia. Qualquer coisa além seria mais prejudicial à economia do país e causaria uma perda significativa de empregos', afirmou Jean Robert Arguant, presidente da Câmara Haitiana de Comércio e Indústria.

'Num país onde a taxa de desemprego é tão alta, é mais importante ter mais gente trabalhando por um pouco menos do que ter bem menos gente com um salário maior.'

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