No Egito, Israel e palestinos discutem os assentamentos judaicos

Expansão das colônias pode atrapalhar diálogo; no fim do encontro, decidiu-se manter as negociações "estritamente confidenciais"

iG São Paulo |

Israelenses e palestinos deparam-se nesta terça-feira, na cidade egípcia de Sharm el-Sheikh, com o primeiro empecilho das negociações diretas: a continuidade ou não da expansão das colônias judaicas na Cisjordânia, o que pode atrapalhar o primeiro diálogo direto entre as partes em quase 20 meses.

O primeiro-ministro isralense, Benjamin Netanyahu, e o presidente palestino, Mahmud Abbas, reuniram-se no Egito para a segunda rodada das negociações, iniciadas em 2 de setembro , com a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton.

AFP
Primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu (à esq.), cumprimenta o presidente palestino, Mahmud Abbas, ao lado da secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton
No fim do encontro, fontes oficiais afirmaram que os dirigentes israelenses e palestinos decidiram manter de forma "estritamente confidencial" as conversas de paz e se comprometeram a completar dentro de um ano os "temas essenciais". "A discussão séria sobre os temas fundamentais já começou", afirmou o enviado especial dos Estados Unidos para o Oriente Médio, George Mitchell.

Antes da reunião, Netanyahu tentou encontrar uma fórmula que satisfaça tanto os colonos e a extrema direita de Israel quanto os palestinos e, sobretudo, o presidente americano, Barack Obama, que já manifestou em diversas oportunidades seu apoio à paralisação das construções.

Netanyahu deixou claro que não prorrogará a moratória parcial à expansão dos assentamentos na Cisjordânia, imposta em dezembro por dez meses e que expira em 26 de setembro, mas também advertiu que não dará carta branca aos colonos, desacelerando a expansão dos assentamentos.

Os palestinos já adiantaram que se levantarão da mesa de negociações caso as construções sejam reiniciadas, embora também se mostrem dispostos a aceitar uma paralisação de fato, mesmo sem declaração oficial.

Para eles, a atual moratória já é insuficiente, porque exclui o território ocupado de Jerusalém Oriental, os edifícios públicos e cerca de 3 mil casas já construídas antes de seu início. Os palestinos também se queixam da posterior aprovação de casos excepcionais e das violações da atual moratória.

Em reunião com ministros de seu partido Likud, Netanyahu disse que Israel tem potencial para erguer 19 mil imóveis, mas que o número será muito menor na prática. O chefe do governo israelense afirmou que não permitirá que os palestinos imponham a moratória como condição para manter o diálogo, da mesma forma que ele não exigiu, para sentar-se à mesa, que os palestinos reconhecessem Israel "como o Estado da nação judaica".

"Não permitiremos que nos ditem que nada mais será construído, mas entre zero e um há outras possibilidades", afirmou. As possibilidades entre esse "zero e um" são diversas, e não está claro qual delas será tolerável para os palestinos e Washington, sem colocar em risco a direitista coalizão do governo israelense.

A solução possivelmente passará pelo fim dos concursos públicos para construir no coração da Cisjordânia, nos pontos mais afastados da barreira de separação erguida por Israel, ressaltou o diário israelense "Maariv".

Essa medida seria combinada com impedimentos burocráticos à edificação impostos pelo Ministério da Defesa, sob a direção do trabalhista Ehud Barak, em lugares onde já foram concedidas permissões de construção.

O Executivo também poderá simplesmente limitar a construção a um número entre 1,5 mil e 2 mil casas ao ano, como havia sido proposto na anterior administração, de Ehud Olmert, durante o fracassado processo de paz de Anápolis. A ideia foi citada por fontes governamentais no diário "Israel Hayom".

A ONG israelense Shalom Ajsav (Paz Agora, em tradução livre), que segue de perto a evolução das colônias, afirma que, esgotada a moratória, os colonos judeus poderão começar a construir 13 mil casas que já foram aprovadas, 5 mil delas em assentamentos afastados da fronteira israelense reconhecida internacionalmente.

Entre as opções mais debatidas nas últimas semanas está a do ministro de Inteligência Dan Meridor (do Likud), que propôs que as construções fosses reiniciadas unicamente nos grandes blocos de assentamentos - que Israel estima que ficarão sob sua soberania em um acordo de paz.

A fórmula, no entanto, não agradou nem ao Gabinete israelense nem aos palestinos. O ministro de Desenvolvimento Regional de Israel, Silvan Shalom, entende que "construir só nos blocos de assentamentos significa desenhar a fronteira sem que seja resultado de um processo negociador", o que significaria renunciar a outras colônias.

Já o ministro de Assuntos Sociais israelense, o trabalhista Isaac Herzog, é um dos poucos que se mostraram a favor da extensão da moratória atual por um prazo limitado de dois ou três meses, após os quais a construção voltaria a ser exclusiva nas zonas onde exista "consenso nacional" de que ficarão como território israelense.

A população, em geral, apoia os colonos. De acordo com uma pesquisa publicada pelo "Maariv", 39% dos israelenses estão de acordo com as construções em todo o território palestino, e outros 36% acham que a expansão deve se limitar apenas aos grandes blocos de assentamentos. Apenas 20% dos israelenses acreditam que o governo deve frear totalmente o projeto colonizador. Qualquer que seja a decisão, é difícil que Netanyahu possa ficar em cima do muro por muito tempo, porque, como expressou o ex-ministro e pacifista israelense Yossi Beilin, "é difícil enganar todo o mundo".

*Com EFE e AFP

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