No Dia da Ira, manifestantes desafiam toque de recolher no Egito

Protestos iniciados após as preces desta sexta-feira continuam durante à noite; manifestantes saqueiam sede do partido de Mubarak

iG São Paulo |

Dezenas de milhares de egípcios desafiaram nesta sexta-feira um toque de recolher imposto entre às 18h desta sexta-feira e às 7h de sábado (14h de sexta e 3h de sábado em Brasília) e mantiveram protestos sem precendentes contra o regime do presidente egípcio, Hosni Mubarak. Para conter as manifestações desta sexta-feira, que foram classificadas de "Dia da Ira" e deixaram ao menos cinco mortos, Mubarak incumbiu o Exército de se unir à polícia nos esforços de segurança.

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Polícia se reúne na Praça Tahrir enquanto carro pega fogo no Cairo, Egito

Mas apesar dessas medidas, as mais dramáticas adotadas pelo governo para reprimir os protestos que começaram na terça-feira e derivaram em caos depois das preces desta sexta-feira, os manifestantes saquearam a sede do governista Partido Nacional Democrático após terem ateado fogo ao edifício. Durante à noite, foram registrados sons de disparos perto de uma delegacia de polícia da capital do país, Cairo, onde manifestantes estavam reunidos, e também na cidade portuária de Alexandria.

De acordo com fontes médicas, pelo menos cinco manifestantes morreram e cerca de 870 ficaram feridos nos protestos. As fontes disseram que 450 manifestantes estavam sendo tratados nas ruas, enquanto outros 420 estavam hospitalizados. Alguns feridos estão em condição crítica, com ferimentos a bala, segundo as fontes. Policiais também foram feridos, mas o número não estava imediatamente claro.

Durante o dia, os manifestantes lotaram as ruas do Egito, arremessando pedras e entrando em confronto com a polícia, que respondeu com disparos de balas de borracha e de gás lacrimogêneo, nas cenas mais caóticas e violentas já vistas em desafio ao regime de 30 anos de Mubarak.

Houve cenas de violência e caos no Cairo e ao menos em outras nove cidades ou regiões do país. Em meio à violência, as autoridades das forças de segurança do Egito informaram que o opositor egípcio Mohamed ElBaradei, Prêmio Nobel da Paz em 2005 e ex-chefe da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), está sob prisão domiciliar. A polícia  lhe informou que ele não pode deixar sua residência no Cairo depois de ter participado das manifestações.

Em meio à escalada das manifestações, a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, fez um apelo para que as autoridades egípcias respeitem os direitos de seus cidadãos e ouçam as reivindicações por reformas políticas e econômicas no país.

A declaração foi a mais recente mostra de que os EUA, que tem no Egito seu principal aliado árabe, podem estar reduzindo seu apoio ao regime de Mubarak. Segundo documentos divulgados pelo site de vazamentos WikiLeaks, os EUA financiaram uma série de organizações pró-democracia no Egito .

No Cairo, pontes e estradas foram tomadas por manifestantes e há informações de que o Museu Egípcio no Cairo, que está ameaçado por um incêndio próximo. Em Suez, manifestantes invadiram uma delegacia de polícia, roubaram armas e atearam fogo ao prédio. Choques também foram registrados na cidade de Alexandria, com informações de que os manifestantes atearam fogo na sede do governo. Há relatos também de choques em Ismailiya, Mansoura e Aswan, assim como Minya, Assiut, Al-Arish e na Península do Sinai.

As manifestações foram inspiradas na onda de protestos que culminou com a queda do presidente da Tunísia Zine el-Abidine Ben Ali, há duas semanas.

Bloqueio da internet e dos celulares

A oposição afirma que autoridades egípcias bloquearam serviços de internet e telefones celulares, em uma tentativa de impedir ou dificultar a organização de novos protestos. O governo nega as informações. Há relatos de que centenas de líderes da oposição foram presos de madrugada. Ao menos dez pertenciam à organização Irmandade Muçulmana, banida pelo governo.

Após as rezas de sexta-feira, milhares de pessoas seguiram a um chamado da oposição e se juntaram a protestos no centro do Cairo e de outras cidades egípcias, para pedir o fim dos 30 anos do governo Mubarak, aos gritos de "abaixo Mubarak" e "o povo quer que o regime caia".

Em vários locais, a polícia antichoques respondeu atirando balas de borracha, além de bombas de efeito moral e jatos d'água. Em uma praça perto de uma mesquita no bairro de Gizé, partidários de ElBaradei foram espancados pela polícia. Eles foram agredidos, segundo a imprensa local, ao tentar proteger ElBaradei, que chegou ao Cairo na quinta-feira para se juntar às manifestações.

Manifestantes também se reuniram em frente à mesquita Al-Azhar e perto de um das residências do presidente na capital.

A operadora de celulares Vodafone Egypt disse em nota: "Todas as operadores de celular no Egito foram instruídas a suspender seus serviços em áreas slecionadas. De acordo com a legislação egípcia, as autoridades têm o direito de emitir tal ordem e nós somos obrigados a cumprir."

null Aberto ao diálogo

Horas antes do início dos protestos desta sexta-feira, o governo afirmou que estava aberto ao diálogo com a oposição, mas advertiu que tomaria "medidas decisivas".

O presidente americano, Barack Obama, descreveu os protestos como o resultado de "frustrações reprimidas" e disse que frequentemente sugeriu a Mubarak realizar reformas. Obama afirmou ter pedido ao governo e aos manifestantes que não recorram à violência.

Na noite de quinta-feira, sites como Facebook ou Twitter começaram a apresentar problemas, assim como o envio de mensagens por celular. Um internauta do Cairo, que pediu para se manter anônimo, disse à BBC que as mensagens de celular não estavam sendo recebidas.

O presidente Hosni Mubarak, que está no poder desde 1981, não foi visto em público desde o início das manifestações. A BBC apurou que chefes dos serviços de segurança teriam dito a Mubarak, de 82 anos, que podem conter qualquer excesso nas manifestações desta sexta-feira.

O governo do Egito quase não dá espaço a posições contrárias, e manifestações da oposição são frequentemente proibidas.

*Com AP, BBC, AFP e EFE

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