No Brasil, líder de El Salvador usa Lula para atrair investidores

Em São Paulo, Mauricio Funes rejeita rótulos entre esquerda e direita e vê Lula defender "ajuda aos pobres"

Matheus Pichonelli, iG São Paulo |

Em visita a São Paulo juntamente com uma comitiva de ministros e empresários, o presidente de El Salvador, Mauricio Funes, disse nesta segunda-feira, em evento na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), que se inspira no presidente Lula para “repensar paradigmas” e afastar temores do mercado em relação a um governo “de esquerda” na América Central.

Agência Estado
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente salvadorenho, Mauricio Funes, durante o Encontro Empresarial Brasil-El Salvador, na sede da Fiesp
Ao lado da primeira-dama, a brasileira (e petista declarada) Vanda Pignato, secretária da Inclusão Social, Funes citou conquistas da gestão Lula para defender que a “resposta” para eliminar a pobreza não está nem no “liberalismo especulador” nem no que chamou de “obsoleto Estado onipresente e intervencionista”.

O discurso foi feito em tom de apelo a empresários salvadorenhos e brasileiros, eventuais investidores presentes no Encontro Empresarial Brasil-El Salvador. O encontro é considerado ponto de partida para o estreitamento das relações comerciais. Apesar de aliados, os países mantêm ainda uma incipiente troca de mercadorias, que movimentaram em 2009 apenas US$ 200 milhões – dos quais mais de US$ 190 milhões corresponderam a exportações brasileiras.

De olho em novos investidores privados, Funes se comparou com o presidente Lula ao lembrar que, antes de 2002, empresários brasileiros temiam que um eventual governo petista provocasse fuga de recursos do País. “Lula acumulou os mesmos temores que tem os empresários de El Salvador”, afirmou Funes, para quem o surgimento de 50 milhões de novos consumidores no Brasil nos últimos oito anos derrotou “os clichês que insistem em divorciar a conquista social, o crescimento econômico” e a democracia.

“Se é de esquerda ou direita, o importante é ganhar a confiança do empresariado”, disse Funes, que durante sua posse como presidente, em julho de 2009, já dizia ter em Lula sua maior inspiração.

Durante o discurso, Funes relatou uma conversa entre ele, Lula e o presidente da Fiesp, Benjamin Steinbruch, em que o líder da entidade contava que o petista entrou no poder pela esquerda e saía pelo centro. Segundo ele, Lula fez um adendo na observação e provocou: após a administração petista, eram os empresários que entravam pelo centro e saíam pela esquerda.

Funes chamou o presidente Lula de “melhor líder do mundo” e disse que sempre se lembra de um conselho dado pelo petista no dia de sua posse, para que o colega lidasse com críticas da imprensa. “Nunca vou esquecer. Você disse para ser paciente e contar algumas vezes até dez, e contar muitas vezes até cem, para poder atuar com inteligência porque um governante precisa ter cautela antes de tomar uma decisão”, contou, entre risos da plateia.

“Menino de boa qualidade”

O presidente Lula, em discurso feito minutos antes, teceu elogios ao colega, mas provocou certo constrangimento entre os convidados durante sua fala. Lula disse que, durante as eleições salvadorenhas, conversou com o presidente dos EUA, Barack Obama, e pediu para que ele prestasse atenção na disputa. “Tem um menino de boa qualidade ali”, relatou o presidente, que depois da vitória de Funes pediu para que Obama se reunisse com o novo presidente.

No mesmo discurso, Lula criticou a “guerra” comercial do mundo globalizado e lamentou que países vizinhos sejam considerados inimigos na disputa por mercados. Os países, defendeu ele, precisam saber que ninguém na região vai ficar mais rico se os vizinhos forem pobres. “Já falei para o ( presidente mexicano, Felipe ) Calderón: em vez de ser inimigos, vamos ajudar os pobres”.

Em certo momento, diante de uma plateia repleta de salvadorenhos, o presidente cometeu uma gafe ao defender que a ampliação das importações provenientes de países “menores”, como El Salvador, não afetariam a balança comercial brasileira. “Para nós isso não significa nada”, disse, seguido do silêncio dos convidados.

Lula citou a relação do Brasil com outros países além dos EUA, sobretudo da América Latina e da África. E lembrou do acordo com o Paraguai para a exploração de energia na usina Itaipu Binacional, pelo qual cada país tem direito a 50% da energia produzida – a maior parte da distribuição, porém, fica com o Brasil, enquanto a capital paraguaia, Assunção, sofre com constantes apagões, conforme lembrou o petista. “Como vamos convencer os paraguaios de que o acordo é justo? Levando energia (financiada pelo Brasil) para o país”, disse Lula, que confidenciou conhecer empresários que apenas esperam melhorias no setor elétrico paraguaio para investir na região.

A pé

Ao falar sobre o momento de paz vivido por El Salvador, que viveu períodos de guerra civil e tensões entre extremistas de esquerda e de direita até o início dos anos 1990, Lula ressaltou a necessidade de cooperação entre os países, “até porque, na América Central, dá para andar de país a país a pé”.

Lula incitou os empresários brasileiros a investirem em El Salvador – e fez referência à indústria têxtil e à produção de etanol a partir da cana de açúcar. “Tem de exportar etanol para os EUA. Eles fazem com milho. E quem gosta de milho é frango”, desta vez, ouvir risos da plateia.

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