Alberto Masegosa. Jerusalém, 15 mar (EFE).- O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, antecipou hoje que seu país continuará com a construção de casas em Jerusalém Oriental, em plena crise com os Estados Unidos pela aprovação de mais imóveis para judeus nessa região da cidade.

"A construção em Jerusalém, e em qualquer outra parte, continuará como nos últimos 42 anos", disse o premier, em alusão às mais de quatro décadas da ocupação israelense do leste da cidade, onde os palestinos exigem estabelecer a capital de seu Estado independente.

Segundo o serviço de notícias "Ynet", Netanyahu fez a declaração em um encontro com o grupo parlamentar de seu partido, o conservador Likud, em resposta à pergunta de uma deputada sobre o efeito da crise diplomática com Washington.

Após referir-se a Jerusalém, o primeiro-ministro israelense disse que a construção prosseguirá também nas colônias da Cisjordânia, ao término do congelamento de dez meses que decretou em novembro nos assentamentos desse outro território ocupado.

"A decisão do gabinete de reiniciar a construção transcorridos os dez meses continua de pé", disse Netanyahu.

A advertência acontece dois dias depois de a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, considerar um "insulto" que atinge os "esforços pela paz" o anúncio da construção de 1.600 casas na colônia de Ramat Shlomo.

O anúncio aconteceu durante a visita na semana passada a Israel do vice-presidente americano, Joe Biden, para impulsionar uma negociação indireta entre palestinos e israelenses e pôr fim ao bloqueio que o processo de paz sofre há mais de um ano.

A Administração americana emitiu imediatamente um comunicado de "condenação" ao anúncio israelense, e no fim de semana Hillary ligou para Netanyahu com o objetivo de mostrar-lhe novamente a rejeição à decisão do Estado judeu.

Segundo o diário "Ha'aretz", a chefe da diplomacia americana ainda exigiu que Netanyahu anule a decisão, faça gestos para reiniciar negociação de paz e diga que o diálogo tratará sobre os assuntos cruciais do conflito.

De acordo com a imprensa local, a ligação da secretária de Estado americana "surpreendeu" o premier israelense.

Fontes ligadas a Netanyahu disseram que o primeiro-ministro ficou surpreso, porque já tinha se desculpado pessoalmente com o vice americano, e tinha reconhecido que o momento escolhido para o anúncio "não era o melhor".

Depois de pedir calma ontem, Netanyahu mudou hoje de postura, e sua advertência aumenta outra vez a tensão entre os dois países.

A crise diplomática evidencia as divergências sobre o conflito no Oriente Médio entre Netanyahu e o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que tem como prioridade a criação de um Estado palestino.

Obama fracassou na tentativa de fazer com que Netanyahu freasse a expansão dos assentamentos judaicos em Jerusalém Oriental, que era a condição dos palestinos para o reatamento das negociações diretas com o Estado judeu.

O presidente americano conseguiu depois que o primeiro-ministro israelense decretasse a moratória na construção nas colônias da Cisjordânia, o que tinha aberto o caminho para que os palestinos aceitassem a fórmula de negociações indiretas.

No entanto, o anúncio das construções em Jerusalém Oriental torna inviável essa fórmula de negociação, e leva a relação bilateral entre Israel e EUA a uma situação de confronto quase sem precedentes entre os dois países, cuja aliança, até agora incondicional, é um eixo fundamental do equilíbrio ou desequilíbrio de forças no Oriente Médio.

Segundo o embaixador de Israel nos EUA, Michael Oren, os dois países enfrentam sua pior crise bilateral em 35 anos.

Oren se referiu à crise de 1975 entre o então secretário de Estado americano, Henry Kissinger, e o primeiro-ministro israelense, Yitzhak Rabin, sobre a exigência dos EUA de que Israel se retirasse parcialmente da Península do Sinai.

Mas o que está em jogo agora é mais delicado: Jerusalém é para os setores conservadores e direitistas israelenses a capital "eterna e indivisível" de Israel, e nenhum esforço do Governo Netanyahu colocaria essa máxima em perigo.

O atual Governo israelense se sustenta na maioria mais intransigente com as reivindicações palestinas nos 60 anos de existência do Estado judeu, e a perda desse apoio parlamentar poderia custar a Netanyahu o posto de primeiro-ministro. EFE amg/mh

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