Nepal escolhe presidente da república e acirra a maioria maoísta

KATMANDU - A Assembléia Constituinte do Nepal elegeu, nesta segunda-feira, o candidato do Partido do Congresso Nepalês (NCP), Ram Baran Yadav, como primeiro presidente da recém-instaurada República, em uma votação que atiçou os ânimos da maioria maoísta, que ameaça paralisar o processo de paz.

EFE |

O presidente da Assembléia Constituinte, Kul Bahadur Gurung, anunciou os resultados da votação, que impôs Yadav com 308 votos frente aos 282 do candidato apresentado pelo Partido Comunista do Nepal-Maoísta (CPN-M), Ram Raja Prasad Singh.

Yadav é secretário-geral do NCP há dois anos e membro da importante etnia madheshi (de origem indiana) que povoa o sul do Nepal, a mesma região de seu candidato rival.

Médico de profissão, Yadav, de 64 anos, incorporou-se à política ativa na década de 1990, quando ocupou duas vezes o cargo de ministro da Saúde durante os Governos do NCP.

Os maoístas, que contam com 227 dos 594 assentos da Assembléia, não conseguiram impor seu candidato após a transposição de votos em apoio a Yadav do principal grupo representante da minoria madheshi, o Fórum Janadhikar Madheshi (Fórum pelos Direitos dos Madheshi).

A derrota de Singh causou mal-estar no partido maoísta, que o tinha apresentado como candidato após assegurar-se do apoio dos seis grupos madheshi (que somam 91 cadeiras), mas comprovou no primeiro turno de votação do sábado passado que parte deles não cumpriria o prometido.

O Fórum Janadhikar Madheshi exigiu no sábado que os maoístas apoiassem seu candidato à vice-presidência da república, cargo para o qual estes tinham apresentado uma mulher.

Finalmente, Parmananda Jha, do Fórum Madheshi, ficou com a vice-presidência graças aos votos do NC e dos leninistas, e a escolha do presidente ficou para uma segunda votação entre Yadav e Singh, após o candidato dos leninistas, também um madheshi, ter sido descartado.

Hoje, o novo presidente nepalês recebeu o apoio de seu partido, dos leninistas, do Fórum Madheshi e de várias formações minoritárias.

Os maoístas acusaram as outras formações de buscarem uma estratégia para encurralá-los.

Processo de paz ameaçado

Segundo a agência de notícias "Nepalnews", um líder do partido, C.P. Gajurel, assegurou, nesta segunda-feira, que perante a nova situação os maoístas se recusam a formar o governo e assinalou que a nova colaboração entre as forças que votaram em Yadav é "profana e antinatural".

Gajurel segue assim, a linha das críticas feitas ontem pelo líder dos maoístas, Pushpa Kamal Dahal, conhecido como Prachanda, que assegurou que esta aliança vai contra o "espírito" do consenso político.

A formação de um novo Executivo no país do Himalaia é essencial para avançar no processo de paz aberto em 2006, após dez anos de guerra entre o governo e a antiga guerrilha maoísta.

Um momento importante deste processo foi o pleito do mês de abril, em que se impôs o partido dos maoístas, à frente do NCP e dos leninistas e através do qual foi proclamada a República no dia 28 de maio, levando à expulsão do rei Gyanendra de seu palácio.

Clique na imagem e veja infográfico sobre o fim da monarquia no Nepal
Maoístas comemoram resultado da Assembléia no Nepal


A vitória obtida nas urnas levou os maoístas a pretender tanto o posto de presidente, de caráter cerimonial, como o de chefe de um governo que ainda está sendo formado.

O anúncio de que passarão para uma virtual oposição acrescenta incertezas a um processo de paz que avançou com inumeráveis atrasos, e no qual as forças políticas se viram obrigadas à busca incessante de um consenso.

O primeiro obstáculo que o processo de paz enfrentou foi precisamente a rebelião da minoria madheshi em fins de 2006, em protesto por sua tradicional exclusão da vida política do país e de suas forças armadas apesar de representarem quase 40% da população.

Yadav assegurou à Agência Efe que uma de suas tarefas principais será atuar como mediador entre as principais forças do país, para que se recupere o consenso.

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