Johanesburgo, 18 jul (EFE).- Nelson Mandela comemora hoje em família seu 90º aniversário em sua aldeia natal de Qunu, onde amanhã mais de 500 convidados prestarão homenagens ao homem que simbolizou a luta contra o sistema segregacionista do apartheid na África do Sul.

Após participar de vários eventos pelo mundo nas últimas semanas para homenageá-lo e também angariar dinheiro para as organizações de caridade que levam seu nome, Mandela se reuniu com seus parentes na remota localidade do sudeste da África do Sul considerado por ele como "primeiro lar".

Na realidade, Mandela nasceu em Mvezo, também uma cidade rural da província do Cabo Oriental, em 18 de julho de 1918 e seu pai era um cacique do clã tembu da tribo xhosa.

Quando seu pai foi destituído, após uma disputa com um magistrado local, o menino Nelson Rolihlahla foi levado por sua mãe a Qunu, a aldeia onde ela tinha nascido e à qual o ex-presidente sul-africano considera desde então sua terra natal.

Apesar de a comemoração de seu aniversário hoje ser um "assunto apenas de família", como tinha anunciado a Fundação Nelson Mandela, o aniversariante, acompanhado de sua mulher, Graça Machel, e de vários netos, recebeu uma delegação de jornalistas.

Mandela, conhecido carinhosamente como "Madiba", nome dado aos anciãos de seu clã, aproveitou a ocasião para falar em nome dos pobres da África do Sul.

"Há muita gente rica na África do Sul que pode dividir suas riquezas com aqueles que não tiveram tanta sorte e não podem sair da pobreza", disse Mandela, que ressaltou que teve a sorte de chegar aos 90 anos, mas que "os pobres não têm condições de viver tanto tempo".

Em mensagem gravada e transmitida pela rádio nacional sul-africana, Mandela também agradeceu os milhares de cumprimentos recebidos de toda a África do Sul e do resto do mundo.

"Fico honrado que queiram comemorar o aniversário de um homem idoso e aposentado, que já não tem poder nem influência, e também muito agradecido que se unam a mim nesta celebração", disse em seu usual tom sereno o antigo líder da luta contra o apartheid.

Entre as mensagens locais de felicitação, estiveram as dos líderes da oposição política ao Governo do Congresso Nacional Africano (CNA), o partido de Mandela.

O presidente do Partido de Liberdade Inkatha (IFP), Mangosuthu Buthelezi, citou a amizade com Mandela, apesar das azedas disputas que tiveram como adversários políticos.

"Minha amizade com 'Madiba' sempre foi marcada pelo afeto e pelo respeito mútuo. Freqüentemente temos nossas diferenças, mas nunca no que diz respeito a nosso país", disse Buthelezi, que acrescentou que Mandela transcendeu todas as diferenças e limitações da sociedade sul-africana.

Segundo o político, um membro da etnia zulu, "Mandela não faz diferenciação entre raças, sexo e condições socioeconômicas, ele vê todos como sul-africanos".

Por sua parte, a presidente da Aliança Democrática (AD, o principal da oposição), Helen Zille, também homenageou Mandela, mas alertou que seu legado está sendo enfraquecido por "poderosos elementos" dentro do CNA.

"Mandela é o homem que fez mais do que qualquer outro para que a África do Sul se sobrepusesse ao desumano sistema do apartheid, mas devemos reconhecer que sua visão corre o risco de ficar relegada a um livro de história de nossa nação pois está sendo enfraquecida pela nova liderança do CNA", disse Zille.

Zille afirmou que o novo presidente do CNA, Jacob Zuma, acredita que "o partido é mais importante que a Constituição e governará até o retorno de Jesus Cristo".

Mandela passou 27 anos na cadeia, 18 deles na prisão de segurança máxima da Ilha Robben, e na discussão de quatro horas antes de o tribunal o sentenciar, declarou que "pôr fim à dominação dos brancos sobre os negros é um ideal pelo qual" estaria "disposto a morrer".

Nas comemorações pelo aniversário de Mandela, também houve celebrações na prisão de Drakenstein, conhecida antigamente como prisão Victor Verster, na província do Cabo Ocidental, e onde o ex-presidente passou o último ano de seu encarceramento até sua libertação, em 1990.

Um coral e uma banda musical formada pelos prisioneiros homenagearam Mandela com um recital exibido ao vivo pela televisão sul-africana, enquanto as autoridades penitenciárias ofereceram um jantar para mil convidados, inclusive os condenados. EFE jm/wr/rr

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.