Nazista era espião para a Alemanha na América Latina no pós-guerra

Walther Rauff chegou ao Chile em meados 1950 e foi recrutado pela agência de inteligência com o intuito de investigar Fidel Castro

iG São Paulo |

AFP
Intenção de espião nazista era investigar Fidel Castro (3/9/2010)
Um oficial nazista de alta patente que havia ajudado a criar uma câmara de gás portátil se tornou espião da Alemanha Ocidental depois da Segunda Guerra Mundial e participou de um treinamento da agência de inteligência alemã (BND), apesar dos mandados de prisão contra ele. Essas informações foram reveladas por documentos recentemente desclassificados do BND.

"Em retrospecto, o recrutamento de Walther Rauff é política e moralmente incompreensível", disse nesta segunda-feira Bodo Hechelhammer, historiador da BND.

Rauff, que foi oficial da SS na Alemanha nazista, atuou como agente da BND na América do Sul entre 1958 e 1962, recebendo por isso mais de 70 mil marcos (cerca de US$ 18 mil), segundo Hechelhammer. O agente morreu no Chile, em 1984, após escapar a várias tentativas para levá-lo à Justiça.

A BND, criada após a Segunda Guerra com a ajuda dos EUA, chegou inclusive a enviar dinheiro para que Rauff arcasse com despesas com advogados, na época em que estava ameaçado de ser extraditado do Chile.

Rauff foi capturado em 1945 por tropas americanas, mas escapou de um campo de prisioneiros italiano um ano depois e, após uma temporada na Síria e depois no Equador, chegou ao Chile em meados dos anos 1950, onde se estabeleceu como homem de negócios em Punta Arenas. Lá, ele foi recrutado pela BND e operou sob o nome de Enrico Gómez, encarregado de informar sobre Fidel Castro - algo que não ocorreu, porque ele não teve autorização para entrar em Cuba.

Entre 1960 e 1962, Rauff participou de dois cursos da BND na Alemanha. Na época do segundo deles, em fevereiro de 1962, ele já era alvo de um mandado de prisão no país, expedido depois de o seu nome ser citado no julgamento de Adolf Eichmann, oficial da SS que foi sequestrado por agentes secretos israelenses na sua casa, na Argentina. Rauff foi preso no Chile em dezembro do mesmo ano.

Devido a um golpe militar de Augusto Pinochet no Chile, Rauff não chegou a ser extraditado, mas em 1963 - quando já havia poucas dúvidas sobre o passado dele -, a BND pagou à família dele 3,2 mil marcos para fazer frente a gastos judiciais.

Hechelhammer comanda uma recém-criada comissão encarregada de promover a transparência na história da BND. O prontuário de Rauff tem 900 páginas, e até recentemente era ultrassecreto.

"Esses documentos mostram que havia toda uma equipe nazista crescendo dentro da BND - e numa época em que o Estado estava intensificando sua caça a criminosos nazistas", disse à revista Der Spiegel o historiador Martin Cueppers, da Universidade de Stuttgart.

"Estamos chocados, mas não surpresos", disse Elan Steinberg, vice-presidente da Reunião Americana de Sobreviventes do Holocausto e Seus Descendentes.

"O fato de as autoridades alemãs terem se envolvido nessa lamentável prática é uma traição em particular das exigências de história e justiça", disse Steinberg à Reuters.

Com Reuters e EFE

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