Nazaré festeja Natal com desafio de preservar identidade cristã

Antonio Pita. Nazaré (Israel), 24 dez (EFE).- Em Nazaré, cidade que viu Jesus crescer, os cristãos festejam hoje a véspera do Natal com o desafio de preservar sua identidade religiosa, minoria em Israel e na comunidade árabe - esta dominada pelos muçulmanos.

EFE |

Embora a localidade cisjordaniana de Belém monopolize toda a atenção no Natal por ser a terra natal de Jesus, Nazaré - localizada na bíblica região da Galiléia - também tem sua importância.

Jesus passou quase toda sua vida e deu seu primeiro sermão em Nazaré, que na época era um pequeno povoado de cujo nome deriva a palavra "cristianismo" nas línguas árabe e hebraica.

E não são só os cristãos que participam das comemorações natalinas do lugar, mas também alguns muçulmanos e judeus vindos de localidades vizinhas, explicou à Agência Efe a jornalista francesa Catherine Dupeyron, autora do livro "Chretiens en Terre Sainte" ("Cristãos na Terra Santa", tradução livre).

No entanto, o ambiente festivo não consegue esconder que muitos seguidores de Jesus rezarão neste fim de ano para garantir o futuro de sua fé em uma terra onde foram a maioria durante séculos.

Em 70 anos, os árabes cristãos passaram de 10% da população de Israel a apenas 1,7%. Mais precisamente, Nazaré tinha 57% de população cristã em 1948, ano da criação do Estado judeu, frente aos 32% atuais.

O local continua sendo o berço do Cristianismo em Israel, ainda que a tendência indique uma queda maior dos números.

Os árabes cristãos representam cerca de 2% da população de Israel, mas são 2,7% dos que emigram, disse Wadei Abu Nassar, ex-representante da Igreja Católica.

A porcentagem não compensa os novos nascimentos, pois os árabes cristãos têm 2,1 crianças por família - menos que os 2,3 dos judeus seculares, 4,5 dos muçulmanos e 6,4 dos judeus ultra-ortodoxos.

Nassar recorre a um dogma cristão para definir sua "complexa" situação.

"Somos como a Santíssima Trindade: árabes, cristãos e cidadãos do Estado judeu. Não é fácil", disse.

No entanto, nem tudo é problema para os árabes cristãos: no geral, eles estão bem integrados, raramente sofrem casos de discriminação e têm nível sócio-econômico melhor que os muçulmanos, porque suas famílias são menos numerosas e algumas vezes recebem apoio da paróquia.

A minoria árabe - que prepresenta um quinto da população de Israel - é formada pelos palestinos que ficaram no Estado judeu após sua criação, e seus descendentes.

Maria Abu Yaber, proprietária de um restaurante em Nazaré e católica, reconheceu que "há tensão entre os que acreditam em Jesus e os que creêm em Maomé", mas ressalta que "o principal problema é entre árabes e judeus".

Os árabes cristãos têm um novo "aliado" nas dezenas de milhares de irmãos de fé originários da ex-União Soviética, que obtiveram a cidadania israelense nas duas últimas décadas por terem pelo menos um avô judeu.

"Já houve casamentos entre cristãos árabes e russos. Em Tel Aviv, há agora até uma feira ao ar livre com artigos de Natal, algo impensável há 20 anos", disse Catherine Dupeyron.

No entanto, um outro católico se mostrou pessimista sobre o futuro do Cristianismo na Terra Santa.

"Temos que evitar que Nazaré vire uma Disneylândia do Cristianismo, com bonitas igrejas, ícones e mosaicos, mas sem cristãos", disse. EFE ap/ab/dp

    Leia tudo sobre: iG

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG