Navio usado por Tito pode virar museu sobre a água na Croácia

Vesna Bernardic. Rijeka (Croácia), 27 jul (EFE).- A cidade portuária croata de Rijeka comprou o histórico navio Galeb (Gaivota), que durante décadas foi o palácio marinho do ditador iugoslavo Josip Broz Tito, e planeja transformá-lo no primeiro navio-museu da região.

EFE |

A embarcação de 117 metros de comprimento é um símbolo da antiga Iugoslávia comunista que viveu sob a tutela do ex-líder.

"Com esse navio, Tito visitou dezenas de portos de todo o mundo e recebeu mais de 100 chefes de Estado ou Governo a bordo", lembra Miodrag Sepic, de 81 anos e capitão do "Galeb" entre 1962 e 1972.

Em entrevista à Agência Efe, este veterano marinheiro destaca que a embarcação é um símbolo do Movimento de Países Não-Alinhados, fundado pelo então ditador iugoslavo em meados da década de 50.

O "Galeb" agora está corroído e empoeirado, mas o prefeito de Rijeka, Vojko Obersnel, anunciou que o conservaria como museu, para transformá-lo em "uma verdadeira atração cultural, histórica e turística".

Se estima que para isso seria preciso investir entre US$ 10 milhões e US$ 30 milhões, quantia para a qual Rijeka procura investidores.

Tito fez sua primeira viagem no "Galeb" em 1953 ao Reino Unido, onde navegou pelo rio Tâmisa para se reunir com a rainha Elizabeth II e o primeiro-ministro Winston Churchill.

O líder comunista percorreu depois com seu "navio da paz" pelo menos 20 países em três continentes, em viagens que duraram no total 478 dias.

Tito recebeu no "Galeb" líderes como Churchill, o líbio Muammar al-Kadafi, o egípcio Gamal Abdel Nasser, os indianos Jawaharlal Nehru e Indira Ghandi, o presidente soviético Nikita Kruschev e dezenas de outros estadistas, além de estrelas de Hollywood como Elizabeth Taylor e Richard Burton.

A bordo do navio, o presidente iugoslavo planejou em 1954, com vários líderes do então chamado Terceiro Mundo, a criação do Movimento dos Países Não-Alinhados, em uma viagem de 75 dias por vários estados da Ásia que depois participariam da primeira cúpula do movimento, em 1961, na cidade de Belgrado.

Segundo Sepic, a viagem mais impressionante foi uma travessia da Europa à Argélia em meados dos anos 60, com uma tempestade "terrível" que durou toda a noite. "Ninguém dormiu, inclusive Tito, que foi jogado da cama para o chão", conta o ex-capitão.

Sepic lembra que quando finalmente chegaram a Argel, ele mal conseguia se manter de pé "por causa da fadiga e do mal-estar, mas Tito estava como se nada tivesse acontecido. Saiu de bom humor e pronunciou um discurso de uma hora diante de um milhão de pessoas".

Segundo o Escritório de Cultura de Rijeka, os quartos originais e a sala de estar com os móveis utilizados por Tito estão conservados, assim como as obras de arte que adornavam o navio, e inclusive a poltrona no qual o ditador fazia a barba, assim como muitas fotos dos encontros realizados na embarcação.

O "Galeb" foi construído em 1938 em Gênova (noroeste da Itália) como o navio de carga "Ramb III". Durante a Segunda Guerra Mundial, foi um cruzador italiano, torpedeado em 1941 pelos britânicos, e em 1943 capturado pelos alemães que o transformaram na embarcação caça-minas "Kiebitz".

O "Kiebitz" fez parte da operação nazista que conquistou o litoral iugoslavo do Adriático e foi afundado em 1944 em Rijeka pela aviação aliada.

Após quatro anos no fundo do mar, as autoridades iugoslavas o trouxeram de volta à tona e o reconstruíram como o navio-escola "Galeb", da Marinha de Guerra da Iugoslávia.

Após a morte de Tito em 1980 e a desintegração da Iugoslávia em 1991, o Exército sérvio levou a embarcação para Montenegro. Em 2000, ela foi vendida ao empresário grego-americano John Paul Papanicolau.

Ele o levou a Rijeka para repará-lo, algo que nunca ocorreu por causa dos problemas financeiros do empresário, até que a Prefeitura local comprou o navio em maio deste ano por US$ 150 mil em um leilão para impedir sua deterioração.

"Se o 'Galeb' for preservado como museu, a juventude poderá conhecer a história", afirma Miodrag Sepic, com a nostalgia própria daqueles que viveram o esplendor da Iugoslávia de Tito. EFE vb-jk/bba

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