Três anos após sua fuga, Natascha Kampusch, a jovem austríaca que foi mantida em um porão por oito anos e meio, disse neste domingo a jornais da Áustria e da Alemanha que ainda não se sente livre. No dia 23 de agosto de 2006, Kampusch escapou de seu sequestrador, Wolfgang Priklopil.

Ela foi abduzida no caminho para a escola em 1998, quando tinha 10 anos de idade, e foi mantida em cativeiro por oito anos e meio na cidade de Strasshof, nos subúrbios de Viena.

Ela passou a maior parte do tempo em uma cela no porão, presa por uma pesada porta.

Logo após a fuga, Priklopil cometeu suicídio.

Expectativas
O caso foi manchete em todo o mundo.

Desde então, relatos sobre Kampusch apareceram frequentemente na mídia austríaca.

Mas agora, em várias entrevistas a jornais austríacos e alemães, ela falou das dificuldades que enfrenta para lidar com a intensa atenção do público.

"A vida em liberdade não é tão boa quanto eu um dia imaginei", disse ela ao jornal austríaco Krone.

Kampusch afirmou que sua vida "mudou radicalmente" no dia em que escapou, mas que ainda não se sente "realmente livre".

Ela disse à Austrian Press Agency que as expectativas do público em relação a vítimas de crimes são "surpreendentes".

Segundo ela, se as vítimas tentam se esconder, recebem críticas porque o público teria o direito de saber o que aconteceu.

Mas, se cedem às pressões e contam suas histórias, são acusadas de buscarem os holofotes e são consequentemente vistas como figuras públicas com pouco direito a privacidade.

Ansiedade
Nos últimos três anos, Natascha Kampusch apareceu em documentários na TV austríaca e chegou a apresentar seu próprio programa de entrevistas, onde conversou com celebridades que incluíram o ex-piloto de Fórmula 1 Niki Lauda.

Atualmente, ela parece estar cada vez mais distante, dizendo ao jornal Krone que raramente sai de seu apartamento em Viena. Ela passa o tempo estudando, pintando e tirando fotografias.

"Eu sofro de ataques de ansiedade e me tornei como um caranguejo eremita", disse Kampusch ao jornal Süddeutsche Zeitung.

O chocante caso que emergiu no ano passado - em que Josef Fritzl manteve a filha em um porão por 24 anos e teve sete filhos com ela - pode ter ajudado a aliviar um pouco da pressão da mídia sobre Kampusch.

Mas as chances de ela ser deixada em paz são poucas.

'Preocupações absurdas'
Muitas perguntas continuam sobre o caso Kampusch.

Em fevereiro de 2008, uma comissão do governo foi criada para investigar possíveis falhas da polícia na condução do caso.

Recentemente, membros da comissão, incluído o chefe da Corte Constitucional austríaca, Ludwig Adamovich, levantaram a possibilidade de que mais de uma pessoa pudesse estar envolvida ou ciente do sequestro.

Adamovich disse à revista austríaca Profil que as chances de que Priklopil agiu sozinho são "poucas".

De acordo com relatos da mídia austríaca, membros da comissão estavam preocupados que a vida de Kampusch pudesse estar em risco se realmente existirem cúmplices no crime.

Mas a própria Kampusch descartou as preocupações como "absurdas", dizendo ao jornal Kurier que não sabe de outros sequestradores.

Ela pode ter que responder mais perguntas das autoridades nos próximos meses
"Eu não tenho medo de mais perguntas, mas acho-as desagradáveis", disse.

"Eu me sinto como uma orquídea desprotegida", disse. "Algumas pessoas tentam me plantar onde querem que eu esteja. Mas eu quero crescer em um lugar que eu mesma escolhi."

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