Naomi Klein: Influência de Washington na América Latina é cada vez menor

Manuel Fuentes Santiago do Chile, 29 abr (EFE).- A escritora canadense Naomi Klein, autora do sucesso editorial Sem Logo: a Tirania das Marcas em um Planeta Vendido, declarou hoje à Agência Efe que o avanço da esquerda na América Latina demonstra que a influência de Washington na região é cada vez menor.

EFE |

Klein, que acaba de publicar um novo livro intitulado "The Shock Doctrine: The Rise of Disaster Capitalism", opina que a esquerda latino-americana - presente em todos os Governos, exceto nos da Colômbia e do México - está diminuindo a ingerência política dos Estados Unidos.

"Isto foi notado claramente com o assassinato, no Equador, do dirigente das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia ("Raúl Reyes"), que evidenciou o fracasso da política de (o presidente colombiano) Álvaro Uribe e da Administração (do chefe de Estado americano George W.) Bush", acrescentou.

A autora de "Sem Logo", uma denúncia do poder das marcas, traduzida para 28 idiomas que vendeu mais de um milhão de exemplares, está no Chile para promover sua nova obra, que relata em 700 páginas a história extra-oficial do capitalismo.

Klein, nascida em Montreal (Canadá) em 1970 e considerada pela revista "Foreign Policy" a intelectual mais relevante do mundo, sustenta que o auge das grandes corporações é baseado no uso constante da violência e do terrorismo pelo capitalismo para introduzir políticas de choque.

"Este livro é um pedido de atenção para evitar desastres como os ocorridos no Iraque ou em Nova Orleans", explicou Naomi Klein, que, além de jornalista e escritora, lecionou na London School of Economics.

A escola dos Chicago Boys -que impulsionaram as reformas econômicas e sociais implementadas durante o regime do ditador chileno Augusto Pinochet- "diz que estes desastres são fruto das leis da natureza, mas eu acho que há opções radicalmente diferentes", declarou.

Naomi Klein afirma que o Chile foi um dos principais berços do neoliberalismo econômico e acredita que, por isso, hoje os eleitores de direita, e inclusive os de esquerda, "têm medo de qualquer coisa que possa desequilibrar a economia do país".

"O verdadeiro projeto dos Chicago Boys no Chile durante os últimos anos foi fortalecer o neoliberalismo, protegê-lo da democracia, das políticas públicas", além de desmantelar o sistema de seguridade social e privatizar o ensino.

Para esta pesquisadora e ativista, informar os cidadãos do mundo sobre o que está acontecendo é a única forma de reverter os efeitos das crises provocadas pelo medo e pela tensão.

Porque "a tática do capitalismo se baseia em explorar a desorientação produzida quando carecemos de informação", disse.

Segundo Klein, "o auge das grandes corporações foi possível pela violência e a aplicação de medidas políticas que tiveram efeitos devastadores".

"A violência e o medo andam de mãos dadas, a combinação dos dois fatores é muito eficiente; observamos claramente com Pinochet e estamos vendo com Bush", afirmou esta jornalista, neta de um sindicalista da companhia Disney e filha de uma artista feminista e de um manifestante contrário à Guerra do Vietnã que fugiu para o Canadá.

Klein sorri quando lhe perguntam se acredita que os presidentes das grandes corporações se sentarão no banco dos réus alguma vez e responde que conhece muitos líderes empresariais que apóiam um modelo econômico diferente e adorariam se submeter às normas reguladoras.

Em sua opinião, "o capitalismo pode se aproveitar de desastres" como a escassez de alimentos, que é um problema enfrentado atualmente por vários países da África, Ásia e América Latina.

"Estamos no início deste processo de doutrina do pânico; estamos vendo como os preços dos combustíveis disparam e como, no meio da crise, aumentam os lucros das companhias petrolíferas", declara.

O medo pode fazer com que o preço das matérias-primas aumente, explica esta ativista da cidadania global, que afirma que "a crise alimentícia também está sendo aproveitada para relaxar os controles sanitários sobre os produtos geneticamente modificados".

Klein propõe um sistema de economia mista, "onde exista o mercado mais envolvido com políticas sociais, onde existam meios de comunicação públicos tão fortes como os privados, um sistema de saúde público, acesso à água, educação gratuita ...e também onde se possa ir às compras", acrescenta rindo.

"Eu vivo no Canadá e tenho uma interessante perspectiva, porque nos comparam com os Estados Unidos, mas somos diferentes", enfatiza Klein, que gosta de polemizar com os papas do neoliberalismo nos EUA sobre a Guerra do Iraque, os cortes fiscais de Bush, o populismo econômico e o capitalismo amigos. EFE mf/bm/db

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