Nakba, uma tragédia marcada na identidade do povo palestino

Antonio Pita Jerusalém, 7 mai (EFE).- A criação há 60 anos do Estado de Israel, que os judeus comemoram com apresentações artísticas e fogos de artifício, é para os palestinos a Nakba, a tragédia que mudou suas vidas e forjou sua identidade de povo sem uma nação.

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"Em 1948 confluíram o momento mais perverso e o mais glorioso", afirma o historiador israelense Ilan Pappe, que defende em seus textos que os líderes judeus tentaram fazer uma "limpeza étnica" dos nativos palestinos.

A guerra que aconteceu após criação do Estado de Israel levou ao exílio 750 mil de 1,3 milhão de árabes que viviam na então Palestina sob protetorado britânico.

Mais de 400 povoados árabes foram destruídos e sobre suas ruínas estão agora os assentamentos conhecidos como kibutz, de maioria judaica, ou parques naturais.

Hoje, os refugiados palestinos beiram os 4,5 milhões, fruto da posterior Guerra dos Seis Dias de 1967 e, sobretudo, do crescimento natural, segundo dados das Nações Unidas.

Por isso, não é de estranhar que este episódio do século XX permaneça marcado como um desastre no imaginário coletivo tanto dos moradores de Gaza e da Cisjordânia como no dos palestinos com cidadania israelense e no dos mais de 2,5 milhões de refugiados nos vizinhos Líbano, Jordânia e Síria.

Já idosos, muitos deles transmitem a seus netos os relatos de uma vida, talvez idealizada, em suas cidades natais antes de fugirem ou de serem expulsos.

Algumas famílias ainda têm em suas casas uma chave que simboliza o retorno dos refugiados a sua terra, um direito reconhecido pela resolução 194 da ONU, mas cuja aplicação plena nunca esteve sobre a mesa nas negociações de paz entre israelenses e palestinos.

A Nakba é lembrada oficialmente, desde 1998, em 15 de maio, o mesmo dia, segundo o calendário gregoriano, em que há 60 anos Israel declarou sua independência.

No entanto, os palestinos também organizam atos que coincidem com o Dia da Independência de Israel, que a cada ano é celebrado em uma data diferente por seguir o calendário judaico, e que nesta ocasião acontece em 8 de maio.

O que ocorreu depois de os exércitos árabes atacarem o Estado judeu em 1948, poucas horas após declarar oficialmente seu nascimento, ainda é um elemento marcante na disputa entre israelenses e palestinos.

Os primeiros argumentam que a maior parte dos nativos palestinos abandonou voluntariamente seus lares estimulados por seus dirigentes e pelos países árabes, que previam uma rápida vitória contra o Estado judeu.

Além disso, destacam que os palestinos pagaram o preço de terem rejeitado o plano de partilha aprovado em 1947 pela ONU, que estabelecia o que muitos dos refugiados sonham 60 anos depois: a criação de um Estado judeu e de outro árabe, então na Palestina sob controle britânico.

"Entendemos que 1948 foi um período muito trágico para os palestinos", reconhece Mark Regev, porta-voz do primeiro-ministro israelense, Ehud Olmert, antes de afirmar que "a verdadeira Nakba é o fato de a liderança palestina da época ter rejeitado a solução de dois Estados".

Do outro lado, os palestinos lembram que seus antepassados não podiam aceitar um plano que dava 56% da terra aos judeus, que além de representarem apenas um terço da população, eram, em sua imensa maioria, sionistas que tinham emigrado para a região.

Além disso, insistem em que as tropas de Israel não se limitaram a vencer o conflito, mas tentaram transformar em realidade o famoso mito sionista de "uma terra sem povo para um povo sem-terra".

A mais conhecida das atrocidades documentadas neste período foi o massacre de Deir Yassin, no qual milícias judaicas - que semanas depois se fundiram para formar o Exército regular israelense - mataram a sangue frio em três dias de abril de 1948 mais de 100 moradores deste povoado nos arredores de Jerusalém.

Da mesma forma que acontece com o idioma hebraico, cuja palavra "shoah" deixou de significar "desastre" para se referir exclusivamente ao genocídio nazista, o termo árabe Nakba não representa mais o seu significado original de "tragédia", e lembra aos palestinos o que aconteceu após o surgimento do Estado judeu.

EFE ap/mh

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