Palestinos prometem uma Intifada sem violência

Hamas acusa americanos de hipócritas porque se apresentam como defensores da implantação de sistemas democráticos no mundo árabe

Nahum Sirotsky, de Israel |

Uma das prováveis e não desejáveis consequências do veto americano na reunião do Conselho de Segurança de ontem pode ser a reconciliação entre o Fatah, de Abu Mazen, movimento de libertação palestina secular, e o Hamas, frente de resistência islâmica. Os dois movimentos palestinos estão afastados há anos. Abu Mazen, que tinha as simpatias americanas e internacionais, aceitava o direito de Israel de existir. O Hamas, que é da seita muçulmana sunita, oposta ao xiismo do Irã, tem o apoio de Teerã, que seria a fonte principal de seu armamento e recursos e tem a destruição de Israel como programa. O Hamas amaldiçoou os americanos pelo veto. E o Fatah prometeu continuar na luta para obter a condenação de Israel pela comunidade internacional das nações pelas atividades que desenvolve nos territórios ocupados, na Cisjordânia. Praticamente rompeu com os americanos. 

O Hamas acusa os americanos de hipócritas porque se apresentam como defensores da implantação de sistemas democráticos no mundo árabe. E o Fatah disse que vai recorrer à Assembleia Geral das Nações Unidas para obter a condenação de Israel que foi rejeitada pelo único voto negativo, mas com poder de veto, no Conselho de Segurança. Não é impossível que os palestinos reúnam bastante votos para fazerem ser aprovada pela Assembleia a sua ambição, pois a declaração de reconhecimento do Estado palestino, que ainda não existe, já conta com cerca de 120 votos. 

Foi Yasser Rabbo, um dos principais líderes do Fatah, quem anunciou a decisão de recorrer à Assembleia Geral, onde, obtendo a maioria necessária, voltarão ao Conselho de Segurança para novo desafio aos americanos. Tawfiq Tirawi, do Comitê Central do Fatah, disse que o veto americano à resolução que interessava aos palestinos “mostra a verdadeira cara do país que tanto clama por democracia para o mundo árabe”. E ele disse que a Autoridade Palestina, que é presidida por Abu Mazen, instituição criada para ser uma espécie de governo interino até que seja criado um Estado palestino, não teme as consequências financeiras de sua atitude. E nem a crise que resultará de suas novas relações com os americanos, de quem tanto depende a economia da área palestina. Com autoridade de um dos líderes do Fatah, Tirawi afirma que “os palestinos não vão sacrificar seus valores” e que as negociações diretas com Israel ficam suspensas enquanto o Estado judeu continue construindo assentamentos nas áreas que fazem parte do futuro Estado palestino. 

Os palestinos de Abu Mazen e, provavelmente, também os do Hamas, que domina a Faixa de Gaza, prometem “um dia de fúria” na próxima sexta-feira. Esta é uma ameaça que contém a possibilidade de um dia de protestos escalar para uma revolta palestina. Aqueles que acompanham de perto os sentimentos predominantes entre os palestinos, seculares e religiosos, não esquecem existir a possibilidade de uma revolta pacífica, que, como se verificou no Egito, e vem ocorrendo em quase todo o mundo árabe no Oriente Médio e na África do Norte, é a mais perigosa.

Em Bahrein, na Líbia, onde têm ocorrido manifestações nos últimos dias, as forças de segurança árabes não têm hesitado em atirar contra as multidões. Bahrein, por exemplo, é a sede da maior base naval militar americana no Golfo. As forças de Khadafi, até a hora em que escrevo, já haviam matado mais de cem líbios que manifestam pelas ruas em protesto contra o ditador que está no poder há 43 anos. Como sistemas autoritários que são, os governos árabes se mostram indiferentes à opinião pública internacional. 

Mas Israel, a única democracia de todo o Oriente Médio e África do Norte, não se pode dar esse luxo. Não usará de munição viva contra manifestantes. Anos atrás, quando estava vivo, Yasser Arafat, que foi o maior líderes dos palestinos até hoje, prometeu liderar uma caminhada de manifestantes pacíficos sem uma só arma. E, com eles, entrar em Jerusalém. Esta é a concepção da “Intifada branca”, a rebelião armada apenas com a paixão popular. Os palestinos sabem, por experiência de vida, que não têm condições de enfrentar Israel pela força. 

O primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, insistiu em declarações na sexta-feira que apenas por conversações diretas se chegará a uma solução para a questão palestina. “Se os palestinos estão sendo sérios sobre sua intenção de resolver o conflito, Israel está pronto a renovar as negociações imediatamente”. A aspiração de Jerusalém é uma solução combinando os objetivos legítimos palestinos com as necessidades de segurança e reconhecimento de Israel. 

Com todos concentrados na violência das reações dos governos árabes onde se realizam manifestações pró democracia, deixou-se de destacar um dos efeitos do veto americano. Os governos árabes autoritários parecem ter perdido confiança no valor de sua aliança com Washington, que não consegue, com seus apelos, influir para que a violência contra os manifestantes seja substituída pelo diálogo. Está nascendo um novo Oriente Médio no momento livre do predomínio das potências que aqui dominavam. Não se sabe quem virá para ocupar o vazio do poder internacional.

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