A guerra religiosa em Israel

Poder político de judeus ortodoxos é obstáculo para desenvolvimento do país

Nahum Sirotsky, de Israel |

Em um texto sobre o campo de pesquisa em psicobiologia na Universidade de Tel Aviv li uma frase instrutiva, ainda que óbvia: “apenas uma coisa é certa sobre a alma humana: até agora ninguém conseguiu encontrá-la com um microscópio”. Foi o que me motivou a tentar explicar a grave e complicada guerra civil, cultural e religiosa que ferve em Israel.

Dizem que a crença começa onde termina a racionalidade. Aprendi, porém, que a crença tem sua lógica. Indivíduo secular, me interesso em compreender, o que não significa concordar. Sem tal empenho, nada em Israel tem sentido.

Um dos grandes paradoxos do país é o de ser uma sociedade multisecular mesmo em um contexto de judaísmo. Trata-se de uma religião com incontáveis diferenças entre seus praticantes. Os judeus Askenazi, ortodoxos com origem na Europa Central, mantêm práticas religiosas que incluem hábitos alimentares e até o emprego de um determinado sotaque nas preces feitas em hebraico, mas influenciadas pelo idish, uma vertente do alemão.

Há ortodoxos que aceitam a existência do Estado judeu. São os religiosos sionistas, nacionalistas. Mas há um número considerável de antissionistas, para quem Israel é uma heresia. O Estado só poderia ter sido proclamado após a vinda do Messias. Os antissionistas consideram a lei canônica, religiosa, não reconhecem a lei do Estado. Sempre que consideram que o ato do Estado desrespeita a lei maior - que eles consideram ter sido revelada por Deus a Moisés - , eles protestam violentamente.

© AP
Ultraortodoxos protestam em Jerusalém contra integração de judias com formação oriental em escola primária (17/06)

Assim chegamos ao que acontece neste momento. No pequeno assentamento de Emanuel, houve um problema em uma escola ortodoxa, quando meninas de formação judia oriental foram aceitas como alunas. Um pequeno grupo de pais retirou suas filhas da instituição, com medo de que fossem influenciadas por tradições orientais. O caso foi levado ao Supremo Tribunal, que determinou aos pais, revoltados, que mandassem suas filhas de volta à escola, pois a lei considera oito anos de formação obrigatórios para todas as crianças. Do contrário, seriam presos. Os pais optaram pela prisão, onde devem ficar por duas semanas.

A revolta religiosa reuniu milhares de pessoas em Jerusalém e Bnei Brak em protesto contra a “ousadia” do Supremo Tribunal de interferir na decisão dos pais, dizendo que cabe a eles decidir em que escola as filhas vão estudar. Para analistas, o caso envolveu preconceito étnico, choque cultural e intolerância.

Há, na verdade, uma queda de braço. O Estado que provar a hegemonia da lei civil, enquanto os religiosos querem provar a hegemonia das leis divinas. Politicamente, os 15 parlamentares religiosos eleitos são a balança do poder no Parlamento de 120 deputados no qual nenhum partido pode prescindir do voto deles para formar governo. Eles discutem e discordam frequentemente, mas juntam-se em forte defesa da lei religiosa.

Em nome dela e da Santidade de Deus, o judeu ortodoxo sacrifica a própria a vida. E o poder político dos ortodoxos, menos de 10% da população, tem sido um obstáculo para o desenvolvimento do país.

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