Participei de grande missa celebrada por cardeal Scherer com jornalista gaúcho Flávio Alcaraz Gomes

Neste dia santo, meus desejos de felicidades a todos. Sempre recordo o primeiro Natal em Belém, depois de reconquistada pelos israelenses, em 1967,
e sob administração da Autoridade Palestina desde a segunda metade da década de 90. Eu era assessor do embaixador do Brasil em Israel e amigo pessoal, ex-aluno, do jamais esquecido Cardeal Dom Vicente Scherer, de Porto Alegre. Juntamente com o jornalista gaúcho Flávio Alcaraz Gomes fomos assistir à grande missa. Ele abençoou Flávio e beijou, a mim, no rosto.

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Freiras e fiéis participam de missa na Igreja de Natividade em Belém, Cisjordânia
AP
Freiras e fiéis participam de missa na Igreja de Natividade em Belém, Cisjordânia

Flávio, então, no Correio do Povo, passou por Tel Aviv, poucos dias antes da Guerra dos Seis Dias, acompanhado pelo fotógrafo China, e veio à minha casa. Eles estavam a caminho do Vietnã. Eu insisti para que adiassem a viagem, uns dias, porque haveria um conflito aqui. Aconteceu a histórica Guerra dos Seis Dias, quando Israel tomou o controle de quase toda Cisjordânia, Jerusalém Antiga, Belém, entre outras localidades.

Dom Vicente Scherer vinha como primeiro cardeal para rezar a grande missa, em duas igrejas, a Basílica da Natividade de Belém, sob controle dos cristãos grego-ortodoxos e onde se encontra a manjedoura do nascimento de Cristo. Ao lado, há uma igreja católica de propriedade de irmãos franciscanos conectada à manjedoura por via subterrânea. Até pouco tempo, os grego-ortodoxos não facilitavam a passagem à basílica para os sacerdotes católicos. Essa situação é resultado da divisão do cristianismo entre os bizantinos e os romanos.

Recordo que Dom Scherer rezou missa em praça pública. Teve pelo menos dois brasileiros que os auxiliaram. O Flávio, grande repórter, corajoso, e eu, judeu. A missa foi ouvida no mundo inteiro. Naqueles tempos, 90% dos habitantes de Belém eram árabes-cristãos. Hoje, estão reduzidos a 1/3.

China, o fotógrafo, tinha dado muito trabalho durante a guerra, que acompanhei de perto, graças à amizade pessoal com um oficial israelense. Brasileiro sempre dá um jeito. China fez loucuras. Ele só sabia falar português. Quando o Flávio e ele passaram pelo Cairo, China fotografou campos de pousos subterrâneos da Força Aérea egípcia. A polícia viu e exigiu a entrega dos filmes, da câmera SpeedGraf.

Veja imagens da celebração de Natal pelo mundo:

Ele deu os filmes, que então se chamavam de Chapa 13, que revela também de chapas vazias, e assim continuaram para Israel. China com os filmes tirados do bolso. Ao que me lembro, esses negativos trazidos por ele acabaram chegando a um jornalista israelense e tendo uso importante na guerra.

Na frente de batalha, nas Colinas do Golan, vi China avançando na direção das tropas sírias, para fotografar mais de perto. Esses registros teriam sido vendidos para uma agência de notícias americana a preço de banana. De volta a Tel Aviv, gente do Exército me pediu para dizer ao China não repetir arriscar a própria vida. Flávio, eu e Alberto Dines, também presente na cobertura, saímos vivos da confusão de 67. Inesquecível.

*Com colaboração de Nelson Burd

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