Reflexões sobre a atual questão do Irã

Por Nahum Sirotsky | - Atualizada às

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Homem tem ainda chance para tentar mudar as transformações que está causando no ecossistema, mas não há otimismo em relação a um entendimento universal

Grande parte do Oriente Médio foi dormir, quarta-feira, sob previsão de dia apocalíptico. O maior frio dos últimos tempos chegaria da Rússia. Seria uma quinta-feira gelada, com chuvas assustadoras. Na leitura da Bíblia, verifica-se que, ao terminar de construir o homem, Deus diz que fez tudo aquilo para o ser humano e esperava que cuidasse-o bem.

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Vários religiosos, de diferentes seitas, comentaram a previsão do dia, como prova da insatisfação do Senhor, com o que o homem vem fazendo com a Sua criação. O clima em mudança permanente é prova de que Ele não está satisfeito com a Sua obra. E que o homem tem ainda uma chance para tentar mudar as transformações que está causando no ecossistema, mas não há otimismo, em relação a um entendimento universal necessário.

Nos meus anos de Jornalismo, acompanhei, de perto, a primeira chamada “Questão do Irã”, em 1946-47, precipitada por uma decisão americana, apoiada por aliados da Segunda Guerra, com oposição da União Soviética. No dia em que o tópico seria discutido, os comunistas avisaram que, se houvesse o debate, eles sairiam da ONU. Os comentaristas logo começaram a especular uma “Guerra Quente”.

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Como correspondente de O Globo, em Nova Iorque, acompanhei as conversações. A ONU estava sediada em uma ex-fábrica de lentes. Mais de mil pessoas estavam presentes, destancando-se Molotov, ministro do Exterior da URSS; Vishinsky, ministro da Justiça, que havia condenado à morte centenas de líderes comunistas, falsamente acusados de espiar para a Alemanha; Manuilsky, secretário-geral do Partido Comunista Ucraniano; e Gromiko, o delegado soviético na ONU. Todos em uma mesma série de cadeiras. O ambiente estava muito tenso.

O presidente da Assembléia Geral, um ex-senador americano, anunciou a agenda do dia: A Questão do Irã. Este tema consistia em desfazer o Curdistão, que havia sido criado durante a guerra, para facilitar a defesa de grandes fontes petrolíferas, ambição do imperialismo alemão. Os russos consideravam que ninguém tinha o direito de interferir em assuntos internos de outros países.

O Curdistão foi parte do Irã, cujo Xá era de tendências nazistas. Temia-se que ele facilitaria a chegada dos soldados do Eixo. Com a guerra vencida, não haveria mais razão para a existência do novo Estado, cujas empresas de petróleo pertenciam a grandes empresas ocidentais.

No mesmo instante, o grupo russo se levantou lentamente e começou a abandonar a reunião. Um dos delegados ocidentais, sentado ao redor da mesa da Presidência, teve um acesso de tosse. Não citarei o nome, porque era uma figura muito querida, mas a dentadura era daquelas antigas e correu pela mesa, sendo devolvida ao delegado, segurada por lenços. Silêncio absoluto na Casa. Alguém do público perdeu o controle e começou a rir. A tensão geral transformou-se em gargalhada generalizada. Os russos não olharam para trás, sem ver o ocorrido, e ficaram ofendidos.

Eu me lembro de jornais, dia seguinte, dizendo: Dentadura quase provoca outra guerra. Não aconteceu nada. Os Estados Unidos, na época, eram o único País com bomba atômica. Fico eu rezando para que a atual questão do Irã, que consiste em impedir os persas de construir sua bomba atômica, também termine pacificamente.
*Com a colaboração de Nelson Burd

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