Na véspera de visita de Lula, Cristina diz que Doha não afeta integração

A presidente da Argentina, Cristina Kirchner, disse neste sábado que apesar das posições diferentes que seu país e o Brasil apresentaram na Rodada Doha de liberalização do comércio mundial, em Genebra, a integração não foi afetada. Quero destacar a firme convicção de quem fala (ela) e do presidente Lula de que a integração é importante na visão dos dois países, disse.

BBC Brasil |

"O assunto (em Doha) era o que colocavam os países desenvolvidos nessa negociação e o que os países emergentes colocavam. Mas não era um bom negócio para os países emergentes e, especificamente, para a República Argentina, com um desenvolvimento industrial inferior, diferente do que tem o Brasil."

Durante as negociações da Rodada Doha, a imprensa argentina chegou a destacar que as divergências entre Brasil e Argentina haviam deixado "uma ferida" entre os dois sócios no Mercosul.

Visita

As declarações de Cristina, em uma entrevista coletiva, foram feitas poucas horas antes do desembarque do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no país.

Lula chega a Buenos Aires neste domingo, acompanhado de cinco ministros e mais de 200 empresários, para sua 12ª visita à Argentina desde 2002.

A visita tem sido considerada por analistas argentinos um gesto de apoio político de Lula à Cristina, após os desgastes sofridos pela presidente argentina depois de uma longa disputa com o setor rural.

A previsão é de que entre os ministros que acompanham o presidente estejam a chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, e o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim.

Cristina afirmou que o assunto Doha "certamente" será tratado com seu colega brasileiro e também com o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, que chega à Argentina na segunda-feira, minutos antes do retorno de Lula ao Brasil.

"Potencial industrial"

A entrevista coletiva deste sábado à imprensa nacional e estrangeira, na residência presidencial de Olivos, a cerca de 50 minutos do centro de Buenos Aires, foi a primeira realizada por Cristina desde que assumiu o poder, em dezembro passado, e tanbém a primeira concedida por um presidente argentino desde 1999.

Cristina voltou a fazer referência ao potencial industrial brasileiro, atribuindo-o a uma "política constante".

"Hoje, por suas políticas constantes, o Brasil tem uma empresa como a Embraer. E nós não temos nada. Por isso, temos que aplicar medidas que sejam permanentes no tempo", afirmou.

Quando questionada sobre a visita de Lula com uma ampla comitiva empresarial, logo depois de Doha, a presidente destacou "a importância da Argentina como um país altamente competitivo".

"Recentemente, o presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, Paulo Skaf) disse, numa entrevista a um jornal argentino, que a Argentina hoje é muito mais competitiva que o Brasil na hora de se investir", afirmou Cristina.

"E isso também é muito importante para a integração".

Em seguida, a presidente citou a Venezuela. "E também quero ressaltar a visita do presidente Chávez. Acho que a integração da Venezuela ao Mercosul é algo mais que importante (...) Especialmente num momento em que o mundo discute energia, preços e alimentos", disse.

Segundo Cristina, apesar dos perfis sociais e econômicos diferentes, não há impedimentos para a "formulação de propostas comuns".

Rumo político

A presidente sinalizou que não mudará o rumo político e econômico que adotou, apesar dos conflitos que viveu durante quatro dos sete meses de seu governo com o setor rural.

Quando um jornalista argentino lhe perguntou se ela estava "arrependida" de alguma medida que adotou, respondeu: "Voltaria a fazer todas as coisas que fiz e também diria que voltaria a aplicar a resolução 125".

Essa resolução previa o aumento dos impostos sobre as exportações agrícolas e provocou mais de cem dias de protestos do setor rural, com bloqueio de estradas, panelaços nas grandes cidades e queda na popularidade da presidente.

Cristina disse que a medida era a primeira oportunidade na "história" do país para se distribuir a riqueza de forma "séria".

Para ela, o fim da medida, rejeitada no Senado, acabou favorecendo os mais "abastados" do setor.

A presidente defendeu o modelo econômico argentino e respondeu apenas com um "não" ao ser questionada se realizará mudanças no seu ministério.

Néstor Kirchner

Nos últimos tempos, a imprensa argentina tem destacado que o ex-presidente Néstor Kirchner, marido de Cristina, tem "grandes poderes" no governo de sua esposa.

"Quando Kirchner chegou à Presidência, em 2003, também diziam que eu mandava. Que eu chamava os ministros, que eu gritava com eles", disse Cristina ao ser questionada se seu governo possui um duplo comando.

"Agora, querem dizer que eu sou a frágil", afirmou. "Mas nós dois somos militantes há muito tempo. (...) E defendemos com idéias a sociedade que melhor queremos para a Argentina, para nossos filhos."
Cristina disse ainda que concedia a entrevista porque considerou o momento importante "após tudo" o que passou, em referência ao conflito com o setor rural.

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