Na Venezuela, Lula defende união entre países em desenvolvimento

Após participar da Cúpula América do Sul-África (ASA), presidente brasileiro tenta convencer Chávez a dialogar com Colômbia

iG São Paulo |

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, disse nesta sexta-feira que, mesmo após o término de seu mandato, o Brasil continuará demonstrando "a mesma disposição" em busca da unidade entre países em desenvolvimento. A declaração foi feita em Caracas, na Venezuela, durante a reunião de abertura da Secretaria da Cúpula América do Sul-África (ASA).

Em tom de despedida, Lula recordou sua experiência nestes oito anos de governo e ressaltou a importância da aliança entre a América do Sul e a África, que possuem "grande potencial" e pensam "na construção" de um futuro comum.

Ao lado do líder venezuelano, Hugo Chávez, Lula prometeu que, após o término de seu mandato, em janeiro de 2011, estará disponível para contribuir com a América Latina e com a África.

© AP
Kirchner, Lula e Chávez posam para fotógrafos em Caracas, na Venezuela

Lula chegou à Venezuela pouco depois das 11h locais (12h30 no horário de Brasília). Ele foi recebido pelo vice-presidente Elías Jaua e, depois, encontrou Chávez e o secretário-geral da União das Nações Sul-Americanas (Unasul), Néstor Kirchner, que está em Caracas desde quinta-feira.

Colômbia

Durante sua passagem pela Venezuela, Lula tenta convencer Chávez a retomar o diálogo com a Colômbia para que os dois países possam atuar juntos no controle da segurança na fronteira. De Caracas, o presidente Lula viaja a Bogotá para acompanhar a cerimônia de posse do novo presidente colombiano, Juan Manuel Santos, onde deve reiterar seu pedido para a abertura de um diálogo.

O governo brasileiro interpreta como um sinal positivo o silêncio do presidente eleito da Colômbia, Juan Manuel Santos, durante a crise diplomática que resultou na ruptura de relações entre os dois países, e aposta que a curto prazo um canal de diálogo mais pragmático e menos conflitivo poderá ser estabelecido entre ambos governos.

"Sabemos que o presidente Santos quer dialogar (com Chávez), e o Brasil espera que essa propensão ao diálogo leve a uma melhora" nas relações entre Caracas e Bogotá, afirmou o porta-voz da Presidência Marcelo Baumbach.

Monitoramento conjunto

Além do diálogo, o Brasil defende o monitoramento conjunto da fronteira entre Colômbia e Venezuela, de 2,1 mil km de extensão, para coibir a entrada e saída de grupos armados irregulares que reiteradamente são o pivô de conflitos entre Caracas e Bogotá. "A questão da fronteira é importante, porque enquanto Venezuela e Colômbia não cooperarem no controle fronteiriço, vamos viver de sobressaltos, a agenda política interna acaba predominando, sem construir uma solução efetiva para o problema", afirmou à BBC Brasil uma fonte diplomática da Presidência.

A proposta, que já havia sido anunciada pelo assessor especial para Assuntos Internacionais da Presidência, Marco Aurélio Garcia, é similar às atividades que estão sendo realizadas pela Comissão Binacional de Fronteira (Combifron) entre Colômbia e Equador.

A cooperação, que foi reativada em 2009, é integrada por altos comandos militares e promove a troca de informações e de monitoramento terrestre e aéreo das zonas fronteiriças. Para o governo venezuelano, no entanto, a discussão deve ir além do controle fronteiriço.

Um diplomata do Ministério de Relações Exteriores venezuelano disse à BBC Brasil que, "apesar" da existência dos mecanimos de cooperação da Combifron, o governo de Álvaro Uribe decidiu invadir território do Equador para bombardear um acampamento das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) que fora instalado ali, ataque que resultou na morte de Raúl Reyes, o número dois na hierarquia de comando da guerrilha, em março de 2008. "É importante controlar as fronteiras, porém, o governo venezuelano acredita que apenas com o fim do conflito armado na Colômbia poderemos alcançar um ambiente de paz na região ", afirmou o diplomata.

Na semana passada, o chanceler venezuelano Nicolás Maduro viajou por sete países integrantes da Unasul para tentar articular uma proposta de internacionalização e monitoramento internacional de um virtual acordo de paz na Colômbia. A iniciativa foi vista como "intromissão em assuntos internos" por parte do governo de Álvaro Uribe, que reiterou a via militar como saída para acabar com a guerra colombiana. A crise entre Caracas e Bogotá voltará a ser discutida em uma reunião de Cúpula de Presidentes da Unasul, ainda sem data determinada.

Eixo Caracas-Brasília

A visita à Venezuela marca o décimo encontro trimestral dos presidentes desde 2007, o último antes de decisivas eleições, legislativas na Venezuela e presidenciais no Brasil. Durante a visita, deverá ser instalado um escritório do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea) em Caracas. O acordo prevê a cooperação nas áreas de integração produtiva entre o sul da Venezuela e o norte do Brasil, entre outros projetos de desenvolvimento. "O eixo Caracas-Brasília tem sido fundamental para dinamizar os processos de integração no continente", afirmou à BBC Brasil o embaixador da Venezuela em Brasília, Maximilien Arvelaiz.

A Venezuela conta com ajuda brasileira para desenvolver setores produtivos em uma tentativa de reduzir a dependência das importações e ampliar o campo industrial e agrícola venezuelano, com acordos de transferência de tecnologia, projetos nos que já atua a ABDI (Associação Brasileira de Desenvolvimento Industrial) e a Embrapa.

A assimetria na balança comercial entre os países - aspecto visto como problemático pelo presidente brasileiro e comentado a cada novo encontro com Chávez - , no entanto, prevalece. No acumulado do primeiro semestre, as exportações brasileiras para a Venezuela tiveram um aumento de 7% em relação ao mesmo período de 2009, totalizando US$ 1,7 bilhão.

Apesar do aumento de 135,4% em relação ao primeiro semestre do ano passado, as exportações venezuelanas para o Brasil no acumulado do ano não superaram os US$ 465 milhões, de acordo com dados do Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.

Lula viaja a Bogotá na tarde da sexta-feira, onde participará do jantar de despedida do presidente colombiano Álvaro Uribe. No sábado, o presidente e outros 12 mandatários latino-americanos assistem à posse do novo presidente colombiano Juan Manuel Santos.

Com Ansa e BBC

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