Na Sérvia, sirenes antiaéreas lembram 10 anos de bombardeios da Otan

Snezana Stanojevic. Belgrado, 24 mar (EFE).- Sirenes antiaéreas soaram hoje por toda a Sérvia para lembrar o décimo aniversário do início dos bombardeios da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) que mataram mais de três mil pessoas e acabaram com o domínio sérvio sobre o Kosovo, província que se declarou independente no ano passado.

EFE |

O Governo sérvio lembrou a data durante solenidade em Belgrado, a qual começou com um minuto de silêncio em memória dos mortos nos 78 dias de bombardeios.

O primeiro-ministro sérvio, Mirko Cvetkovic, disse que "o bombardeio teve consequências danosas para a Sérvia, para a região e para as relações políticas no mundo" e acrescentou que seu país "não pode esquecer esses dias trágicos".

"Pelo futuro de nossos filhos, não podemos permitir nunca que algo assim se repita. As vítimas, o passado e o futuro nos obrigam a isso", disse Cvetkovic.

Às 12h locais de hoje (8h de Brasília), vários ministros sérvios colocaram arranjos de flores em diferentes regiões do país atingidas pelas bombas e em monumentos às vítimas em Belgrado e outras cidades como Aleksinac e Nis.

Empresas, escolas e as principais instituições públicas também pararam para prestar uma homenagem às vítimas com um minuto de silêncio.

Os bombardeios começaram em 24 de março de 1999 após um suposto massacre sérvio em Racak (Kosovo) e o fracasso das negociações em Rambouillet (França) entre a Sérvia, então sob o poder do autoritário líder Slobodan Milosevic, e a cúpula albano-kosovar.

A campanha aérea da Otan não contou com a aprovação do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Enquanto na Sérvia - onde o sentimento antiocidental continua forte - os bombardeios costumam ser tidos como crimes de guerra, os albano-kosovares veem a ação da Otan como o princípio do fim da dominação sérvia no Kosovo.

Como consequência dos bombardeios, Milosevic se viu forçado a retirar todas as suas tropas do Kosovo. Além disso, cerca de 200 mil civis sérvios residentes nessa província foram expulsos pelos albano-kosovares.

Após nove anos de administração internacional, o ex líder guerrilheiro e agora primeiro-ministro kosovar, Hashem Thaçi, proclamou em fevereiro do ano passado a independência unilateral do Kosovo, algo que a Sérvia não reconhece e rejeita com veemência.

Apenas 56 países reconheceram desde então a soberania kosovar, entre eles as principais potências ocidentais.

Entretanto, nações de destaque no cenário internacional não reconhecem o Kosovo como país, como Brasil, Espanha, Índia, Rússia e China.

O porta-voz do Ministério de Assuntos Exteriores russo, Andrei Nesterenko, declarou hoje que Moscou considera os bombardeios da Otan como ato de agressão contra um Estado soberano e pede que fatos similares sejam evitados no futuro.

Em comunicado publicado na site da Chancelaria, Nesterenko acrescentou que "a operação militar da Otan foi uma demonstração de uma política de força unilateral e um menosprezo aos princípios coletivos para a resolução de problemas internacionais".

O porta-voz lembrou que "esta ação, conduzida sob o pretexto de evitar uma catástrofe humana, provocou uma onda de refugiados que não puderam retornar aos seus lares, causou vítimas entre a população civil, destruiu totalmente a infraestrutura civil e os sistemas vitais do país".

O comunicado russo ainda diz que os passos posteriores dados pelos participantes da operação da Otan transcorreram com base "em uma lógica errônea de justificativa de suas ações e de incentivo ao extremismo albano-kosovar".

O porta-voz completou dizendo que tudo isso "não completa nem de longe a lista de consequências da política implantada como resultado da proclamação unilateral da independência da região contra as resoluções do Conselho de Segurança da ONU".

Segundo as autoridades sérvias, os bombardeios vitimaram cerca de mil membros da Polícia e do Exército, além de quase 2.500 civis, entre eles 89 crianças, e feriram 12.500 pessoas.

Entidades como a ONG de defesa dos direitos humanos Human Rights Watch situam o número de civis mortos em quinhentos.

As bombas da Otan destruíram 148 imóveis e 62 pontes, enquanto que cerca de 300 escolas, hospitais e outros edifícios foram seriamente danificados, assim como 176 monumentos históricos.

Além disso, um terço da capacidade elétrica do país e duas refinarias foram destruídas.

No total, os danos materiais chegam a quase US$ 30 bilhões, e as seqüelas da guerra continuam visíveis em várias cidades sérvias.

Ainda persiste o perigo do contato com bombas de fragmentação e com munição contendo urânio empobrecido, o que torna impossível avaliar os efeitos a longo prazo sobre a saúde pública. EFE Sn-jk/bba

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