Na prisão, dissidente chinês não sabe que ganhou Nobel da Paz

Segundo advogados, Liu Xiaobo está incomunicável na prisão, onde desde 2009 cumpre uma sentença de 11 anos

EFE |

O dissidente chinês Liu Xiaobo, agraciado nesta sexta-feira com o prêmio Nobel da Paz , não sabe da premiação porque está incomunicável na prisão, onde cumpre desde 2009 uma sentença de 11 anos por reivindicar a democracia em seu país, disseram seus dois advogados Mo Shaoping e Pu Zhiqiang. 

"Estou muito contente", assegurou Pu, cuja amizade com o Nobel da Paz começou em 1989, quando ambos se conheceram nas manifestações pró-democráticas de estudantes na Praça da Paz Celestial, que em 4 de junho terminaram em um massacre do Exército.

Mo também disse se sentir muito feliz: "Que Liu tenha conquistado o prêmio é um orgulho para todos. Agora é um chinês que vive na China, e não um exilado (como o dalai-lama ou o escritor Gao Xingjian, Nobel de Literatura em 2000) que recebeu um Nobel."

AP
Manifestante em Hong Kong segura cartaz com foto de dissidente chinês Liu Xiaobo em que se lê: A prisão de Prêmio Nobel da Paz é vergonha da China
Para os advogados, que também são amigos de Liu, a decisão do instituto norueguês significa "que a sociedade civil internacional reconhece o trabalho de Liu Xiaobo pela democracia e pela aplicação da lei na China".

O presidente dos EUA, Barack Obama, elogiou a premiação de Liu, pedindo que a China o liberte . Obama disse que China alcançou um dramático progresso na reforma econômica, mas "esse prêmio nos lembra que a reforma política não seguiu o mesmo passo".

Premiação sob críticas de Pequim

O ganhador do Prêmio Nobel da Paz é um incômodo dissidente para o governo comunista de Pequim, que tentou, sem sucesso, intimidar o Comitê do Nobel para que não premiasse seu famoso desafeto. O escritor de 54 anos foi premiado "por sua longa e pacífica luta por direitos humanos na China", disse o Comitê Nobel.

Ao anunciar a decisão, o secretário do comitê, Thorbjørn Jagland, ressaltou o fato de Liu ter participado dos protestos da Praça da Paz Celestial em 1989. Nascido em Changchun em 28 de dezembro de 1955, Liu é um dos autores do manifesto "Carta 08", assinado por outros 303 intelectuais e artistas chineses em 2008 e que, um ano depois, provocou sua condenação a 11 anos de prisão e mais dois de privação de direitos civis por "incitar à subversão".

Segundo Liu, a sentença viola a Constituição chinesa, já que o manifesto reivindicava direitos como a liberdade de imprensa e de expressão e o multipartidarismo, incluídos na própria Lei Fundamental, lembrou o Comitê Nobel. Mas, na prática, "essas liberdades foram claramente restringidas dos cidadãos", e a China, cujas conquistas econômicas o Comitê elogiou, não cumpre ainda vários acordos internacionais de direitos humanos que assinou, diz o texto do anúncio.

O manifesto, que atualmente acumula 20 mil assinaturas, foi inspirado na "Carta 77" que a oposição da extinta Checoslováquia redigiu em 1977 e contribuiu para a queda do regime comunista em 1989.

Em comunicado divulgado pelo Ministério de Relações Exteriores chinês, Pequim considerou que a escolha de Liu Xiaobo é uma "obscenidade" , argumentando que violava a vontade de seu criador, Alfred Nobel, ao honrar um "criminoso".

Professor em Columbia

Em 1989, Liu abandonou sua estada como professor visitante da Universidade de Columbia, em Nova York, para liderar a greve de fome nos protestos estudantis da Praça da Paz Celestial, em Pequim, que terminaram em massacre.

Frente ao endurecimento do regime, iniciou a greve na célebre Esplanada de Pequim, na companhia do cantor Hou Dejian e de outros dois intelectuais, Zhou Duo e Gao Xin. "Preferimos ter dez diabos que se controlam mutuamente do que um anjo que dispõe do poder absoluto", escreveram em uma declaração pública, na qual também criticam alguns estudantes que esqueceram os ideais democráticos de sua luta.

Na madrugada de 4 de junho, quando o Exército tentou dispersar os manifestantes que ocupavam a Praça, o grupo se oferece para fazer a mediação e obter uma retirada pacífica. Detido depois da violenta repressão ao movimento, o opositor passou um ano e meio na prisão sem jamais ter sido condenado.

Teve problemas de novo como regime e foi enviado para um campo de "reeducação pelo trabalho" entre 1996 e 1999, por ter reclamado uma reforma política e a libertação das pessoas ainda presas por participação no movimento de junho de 1989.

No "campo de reeducação pelo trabalho", casou-se com sua segunda e atual esposa, a poetisa Liu Xia. Para ela, o que une o casal é uma amizade de décadas e o amor de ambos pela literatura, especialmente por Dostoiévski e Kafka. Já Liu definiu sua relação em uma mensagem escrita após a sentença de 2009: "Teu amor é a luz que atravessa os muros e as grades da prisão, acaricia cada polegada da minha pele, aquece cada uma das minhas células, me permite manter a calma interior."

Nas fotografias tiradas durante momentos de liberdade - sempre vigiados -, ele aparece bastante magro, com óculos de armação metálica e cabelo curto. Censurado na China, seus livros são publicados em Hong Kong.

Em uma de suas últimas entrevistas, Liu assegurou que mantinha a esperança. "Vamos avançar muito lentamente, mas não será fácil conter as demandas de liberdade das pessoas comuns e dos membros do Partido (Comunista)", afirmou Liu.

Segundo Liu, que não nega ter havido avanços na sociedade chinesa desde 1989, o Partido Comunista se verá obrigado a se abrir cada vez mais, sob a pressão da população, cansada das mentiras oficiais.

Embora o Comitê Nobel reconheça que o premiado não poderá viajar para Oslo para receber o prêmio em 10 de dezembro, disse que manterá o programa habitual com a cerimônia na prefeitura, o banquete e o concerto em sua honra no dia seguinte.

*Com EFE a AFP

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