Na OIT, Brasil quer dar exemplo de combate a crise

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai apresentar nesta segunda-feira na Suíça, na sede da Organização Internacional do Trabalho (OIT), as ideias do governo brasileiro sobre como evitar que a economia mundial se deteriore ainda mais e afete de forma mais grave os empregos dos trabalhadores. O assessor especial de Lula, Marco Aurélio Garcia, que o acompanha aqui em Genebra, adiantou que o discurso do presidente deve seguir a linha que ele já vem defendendo em foros internacionais, que aponta para o multilateralismo e para uma forte presença estatal na economia como receita para combater a crise econômica e as ameaças de desemprego.

BBC Brasil |

"Ele vai insistir na agenda que os países emergentes têm defendido: continuar adotando medidas anti-cíclicas (para conter os ciclos de crise econômica) e exercer pressão sobre os organismos internacionais (como o FMI e o Banco Mundial) para que deem apoio efetivo aos países em dificuldade sem impôr condicionalidade", disse Garcia.

Em outros foros, como no G20 (o grupo de 20 países de economia avançada e em desenvolvimento que concentra mais de 90% do PIB mundial), o Brasil tem defendido a necessidade de uma redefinição da geografia econômica mundial, dando mais voz aos países emergentes na condução dos assuntos econômicos globais e em organismos como o FMI e o Banco Mundial.

Ao mesmo tempo, o Brasil defende um modelo de Estado forte que atue para incentivar e regular a economia - através das tais "medidas anti-cíclicas" citadas por Garcia.

"O governo não quer renunciar a esta forte presença do Estado no enfrentamento da crise. A maior presença do Estado é que garante a execução de medidas anti-cíclicas, que são as medidas sociais de uma maneira geral e iniciativas tipo o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento)", afirmou Garcia.

"Um caso típico é o plano habitacional, que não estava previsto. Ele surgiu porque evidentemente há uma demanda social nessa direção, mas em segundo lugar porque nós sabíamos que o lançamento desse plano teria um impacto positivo na reativação da economia e na criação de empregos."

Segundo Garcia, as "medidas anti-cíclicas" não necessariamente precisam incorrer em mais gastos públicos. "Pode ser isenção fiscal."

Crise x emprego

O discurso de Lula, o ex-operário que se tornou presidente, deve ser um dos pontos altos da Conferência da OIT, que tem como ponto central a questão do emprego no contexto da crise econômica.

Do evento participam também outros chefes de Estado, como o presidente francês, Nicolas Sarkozy, e a presidente argentina, Cristina Kirchner.

O assessor presidencial disse que Lula e Kirchner vão reiterar sua decisão de convidar a OIT para participar das reuniões do G20 sobre a desaceleração econômica. "A ausência da OIT nessas reuniões é inexplicável, porque as principais vítimas dessa crise são os trabalhadores", afirmou.

Em suas últimas projeções de emprego, divulgadas há cerca de duas semanas, a OIT estimou que a crise deve ser responsável por elevar entre 29 milhões e 59 milhões o número de pessoas desempregadas no mundo - hoje são cerca de 190 milhões.

O assessor do presidente argumentou que, no Brasil, os efeitos da crise foram contidos por uma governança responsável que já existia antes da crise. "As linhas gerais das políticas anti-cíclicas no Brasil foram estabelecidas antes da crise, por isso serviram um pouco de instrumento de contenção", afirmou.

"Agora, vamos continuar fazendo o que temos feito: manter sintonia fina de tal maneira que se acentuem as medidas fiscais, medidas creditícias. A última decisão do Copom (o Comitê de Política Monetária, que rebaixou a taxa básica de juros ao patamar de um dígito) ajuda. Vamos operar em várias frentes, mas são operacionais. A modelagem de enfrentamento da crise já foi tomada antes da crise."
Questionado sobre as suas expectativas para o desempenho da economia do país, Marco Aurélio foi vago: "ah, não me pergunte isso", disse. Mas em seguida completou: "Eu acho que nos podemos chegar ao fim do ano com um resultado surpreendente para os parâmetros internacionais, que seria de crescimento positivo.

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