Na Geórgia, Moscou mostra seu poder e se vinga pelo Kosovo

Ao deflagrar um conflito armado com Tbilisi por uma província separatista georgiana, Moscou mostrou os músculos aos ocidentais e se vingou do revés sofrido no Kosovo, consideraram analistas.

AFP |

"Foi uma demonstração de força, dirigida a todos os que consideram que a Rússia pode ser ignorada", comentou Macha Lipman, analista da Fundação Carnegie em Moscou.

Com bombardeios e ataques de blindados para mais além da Ossétia do Sul, a operação russa na Geórgia parece ampla e desproporcional em relação ao argumento oficial de "proteger cidadãos russos" (a maioria dos cidadãos ossetas possuem um passaporte russo).

A queda da União Soviética em 1991 abalou o poder da Rússia no cenário internacional. Assolado por uma grave crise econômica, tomado pelas máfias, o país foi traumatizado pela perda de sua autoridade no mundo.

A chegada à presidência de Vladimir Putin, hoje primeiro-ministro, em 1999, mudou esta percepção.

Alimentada por seus petrodólares e impulsionada pela ambição deste ex-oficial do KGB, a Rússia voltou a ser uma importante protagonista no cenário internacional, com Putin se aproximando de seu principal objetivo: restaurar o poder perdido da União Soviética.

Porém, Moscou sofreu vários reveses diplomáticos. Um dos últimos e dos mais dolorosos aconteceu em fevereiro deste ano, com a declaração de independência da província sérvia do Kosovo, de maioria albanesa, reconhecida imediatamente por Washington e vários países europeus apesar da ferrenha oposição de Moscou.

Humilhada pelo reconhecimento diplomático do Kosovo e a ampliação da Otan a várias ex-repúblicas soviéticas como Estônia, Letônia e Lituânia, a Rússia quer mostrar "quem manda em sua casa", afirmou Alexander Rahr, especialista em Rússia da Sociedade alemã de política externa (DGAP).

"A Rússia não tinha outra alternativa senão responder" à ofensiva georgiana na Ossétia do Sul, que integra sua esfera de influência, destacou, por sua vez, Fedor Lukianov, redator-chefe da revista A Rússia. "Neste caso, não reagir significaria admitir sua impotência", frisou.

Além disso, segundo Lipman, os Estados Unidos criaram um precedente com a guerra no Iraque. "Washington só se sentiu legitimado por causa de sua força. Agora, a Rússia é que se tornou forte", explicou.

A derrubada do presidente da Geórgia, o pró-ocidental Mikheil Saakashvili é outro objetivo de Moscou.

"Saakashvili não pode mais ser nosso parceiro, e seria melhor se ele saísse", afirmou nesta terça-feira o ministro russo das Relações Exteriores, Serguei Lavrov.

A possibilidade é considerada provável por alguns especialistas, depois do fracasso da tentativa de Tbilisi de retomar o controle de sua província separatista.

"A ofensiva na Ossétia do Sul pôs um ponto final à restauração da integridade territorial da Geórgia. Não são mais duas províncias rebeldes (Ossétia do Sul e Abkházia), mas dois Kosovos" georgianos, analisou o jornalista ucraniano Vitali Portnikov.

"Saakashvili será visto pelos georgianos como um símbolo da derrota, e terá que renunciar", antecipou Portnikov.

"Ele assumiu um risco muito alto, e perdeu", resumiu Lukianov, para quem a comunidade internacional acabará reconhecendo, "provavelmente em cerca de dez anos", a independência das repúblicas rebeldes da Geórgia, que poderão em seguida se juntar à Rússia".

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