Na Faixa de Gaza, contrabandistas esperam pela luz no fim do túnel

Quando acabar a guerra em Gaza, o contrabandista Abu Ali pensa em consertar seu túnel, construído sob a fronteira com o Egito, uma das centenas de passagens subterrâneas destruídas pela força aérea israelense durante a ofensiva no território.

AFP |

"A vida em Gaza é impossível sem os túneis, porque eles são nossa única abertura para o mundo", afirma Abu Ali, que prefere não informar seu sobrenome.

Nos últimos anos, um sem-número de túneis e caminhos subterrâneos foram cavados sob a fronteira entre a Faixa de Gaza e o Egito, com a missão de trazer ilegalmente de fora o que o bloqueio israelense - estabelecido quando o Hamas tomou o controle do território - não permite que se compre legalmente.

É através dos túneis que contrabandistas como Abu Ali trazem do Egito alimentos, material de construção e aparelhos eletrônicos - além de armas, foguetes e munição, destinadas a abastecer os grupos armados que atuam em Gaza.

Esse comércio através dos túneis não é apenas um grande negócio para quem os explora, mas também e principalmente para o Hamas, que cobra impostos sobre as mercadorias trazidas. O grupo radical assumiu o poder na Faixa de Gaza em junho de 2007, após um golpe que expulsou o movimento Fatah, do presidente Mahmud Abbas.

Conscieente de que o contrabando subterrâneo de armas é o oxigênio da guerra do Hamas, o exército israelense já bombardeou várias dezenas de túneis desde o início de sua ofensiva em Gaza, no dia 27 de dezembro.

Abu Ali, no entanto, parece decidido a "consertar" o túnel, bastante danificado pelas bombas. Ele explorava a via com outros quatro sócios, entre eles o chefe do braço armado do Hamas.

Por enquanto, não se atreve sequer a chegar perto da área do túnel, porque "os aviões israelenses atacam qualquer coisa ou pessoa que se aproxima da fronteira".

"Não sabemos se os bombardeios destruíram nossos túneis, porque ninguém pode se aproximar. Afinal de contas, nossas vidas são mais importantes que o dinheiro e o trabalho", estima por sua vez Ayman, cuja família explora duas vias subterrâneas, uma para contrabandear mercadorias e outra só para trazer combustível.

"Tivemos que pagar para que nos trouxessem um carregamento de comida em conserva através de um túnel que ainda está funcionando, e o preço no mercado aumentou", conta o contrabandista de 21 anos.

Segundo Ayman, o que "faz com que as pessoas arrisquem suas vidas" nos túneis não é o benefício econômico, mas sim o bloqueio. Nos últimos meses, dezenas de palestinos morreram em acidentes e desmoronamentos nas passagens subterrâneas.

Outro contrabandista, Iskandar, acredita que o Egito fará vista grossa para os túneis que resistirem aos ataques.

"O Egito não quer que o povo de Gaza morra de fome, e não se deve esquecer que os túneis levam para os comerciantes egípcios até 45 milhões de dólares por mês", afirma, apesar das fortes pressões de Israel para que o Cairo feche a saída dos túneis do seu lado da fronteira.

A destruição de vários deles nos últimos dias já se reflete nas prateleiras vazias das lojas de Gaza, que antes ficavam repletas de produtos "importados" do Egito.

az-ezz/ap

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