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Na Etiópia, doentes ortodoxos recorrem à água sagrada

Antonio Jaén Osuna Adis-Abeba, 16 mai (EFE).- A água sagrada que corre no ponto mais alto de Adis-Abeba, próximo à Igreja ortodoxa de Santa Maria, é o método mais usado pelos doentes da região, que só em último caso se dirigem aos centros médicos.

EFE |

No monte Entoto, mais de mil infectados com aids vivem com a esperança de que suas doenças desapareçam pelo efeito milagroso da água que só os sacerdotes autorizados podem manipular.

Salalem Desalem, que é soropositivo e presidente desta comunidade há quatro anos, disse à Agência Efe que "a princípio, eram cerca de 3 mil os que formavam o que depois se transformaria em uma associação, mas o tempo e a doença" reduziu o grupo a um terço do que era.

Mesmo assim, sua fé predomina e estão convencidos de que não necessitam de nenhum tratamento médico para combater a aids além da água sagrada que é oferecida pela igreja.

"Quando cheguei a este lugar há quatro anos quase não conseguia andar, tinha que me sujeitar a usar um bastão", continuou Salalem, enquanto caminhava vigorosamente em direção ao lugar onde se encontra a água sagrada.

"Agora me encontro cheio de saúde e força. Não me fazem falta médicos. Permanecerei aqui até que seja a vontade de Deus".

Como Salalem, são muitos os que se deslocam para a Igreja de Santa Maria e renunciam a todo tipo de intervenção facultativa, por medo de que os efeitos da água sagrada desapareçam.

Embora o arcebispo Abuna Paulos, patriarca da comunidade ortodoxa, reforce que a medicina tanto como a água sagrada são válidas "já que ambos são caminhos de Deus", muitos sacerdotes consideram uma falta de fé recorrer à medicina.

Os funcionários do hospital Saint Peter, a vários quilômetros da fonte de onde os sacerdotes extraem a água sagrada, conhecem bem esta situação.

Por este motivo, de poucos em poucos meses, vão à Igreja de Santa Maria para informar aos muitos infectados de aids e de tuberculose sobre suas possibilidades de tratamento no centro.

O hospital conta com a ajuda do Global Fund, criado em 2002, com o apoio da ONU e do Grupo dos Oito países mais desenvolvidos para lutar contra a malária, a tuberculose e a aids.

Graças a sua cooperação, os remédios normalmente inacessíveis para a maioria dos afetados, são distribuídos gratuitamente.

Amara Toruna, que é um dos pacientes do hospital Saint Peter, há seis anos - com 31 anos de idade - soube que tinha aids e, após passar vários anos perto da fonte de água sagrada, começou a se sentir muito fraco, e então decidiu ir ao hospital, onde diagnosticaram, além disso, tuberculose.

"Estava em uma situação crítica quando cheguei", narrou sorrindo, e "comecei a tomar os remédios e depois de alguns dias já me sentia muito melhor. Só alguém que passou por esta doença e sofreu suas conseqüências, sabe os benefícios de um tratamento como este".

Contrariamente ao que costuma ocorrer no Ocidente onde, quando a medicina falha, milagres são procurados como último recurso, para muitos cristãos ortodoxos da Etiópia é quando a fé falha que o milagre da medicina é requisitado, e só se dirige a ela como último remédio. EFE aj/bm/fb

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