Na Colômbia, Lula negociará acordos de defesa com Uribe

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva inicia neste sábado uma visita oficial de dois dias à Colômbia para, entre outros temas, negociar com o presidente colombiano, Álvaro Uribe, acordos na área de Defesa. Um dos acordos que poderão ser firmados trata do combate a ilícitos fronteiriços, que na prática representaria o fortalecimento da segurança nos mais de 1,6 mil quilômetros de fronteira amazônica, com o objetivo de coibir a entrada de grupos armados colombianos (guerrilhas e paramilitares) e de redes de narcotráfico em território brasileiro.

BBC Brasil |

Outro projeto a ser discutido trata da cooperação binacional na troca de informação militar, a promoção de venda e compra de armas e estabeleceria a realização de exercícios militares conjuntos.

Na opinião do cientista político Mauricio Romero, professor de Ciências Políticas da Universidade Javeriana, a iniciativa é uma estratégia do governo brasileiro para convencer Uribe a se integrar ao Conselho de Defesa Sul-americano.

"O Brasil dá um primeiro passo para atrair o governo colombiano, que tem se esquivado do projeto, ao mesmo tempo que dá um voto de confiança à Colômbia, esperando ampliar as possibilidades de cooperação, leia-se, Conselho de Defesa", disse Romero à BBC Brasil.

Estados Unidos
Para o cientista político, a contrariedade de Uribe em aliar-se ao projeto reside no fato de que as políticas adotadas pelo Conselho poderiam divergir das praticadas pelos Estados Unidos, principal aliado de Bogotá no continente.

"Uribe resiste em incorporar-se a um mecanismo de defesa que debilite a presença dos EUA na América do Sul", afirmou.

O ministro de Defesa, Nelson Jobim, disse que a Colômbia resistia em entrar no Conselho de Defesa por causa da crise diplomática com a Venezuela. "Mas agora as coisas mudaram e vou verificar se a alteração da conjuntura política poderá mudar a posição da Colômbia em relação a isso", afirmou.

O projeto do Conselho ainda está em discussão e prevê, em linhas gerais, a colaboração para a produção de armamentos, troca de informações entre as forças armadas dos países da região e treinamentos conjuntos.

O Conselho de Defesa estaria conectado à recém criada União de Nações Sul-americanas (Unasul), cujo andamento será um dos pontos de debate entre Lula e Uribe neste sábado.

Fronteira
Segundo Romero, o êxito de acordos de cooperação depende também do rumo que o governo colombiano vai adotar em relação a uma possível saída para o conflito armado.

"Isso determinará a tranqüilidade ou não dos vizinhos na região", disse.

Para ele, se Uribe optar por derrotar militarmente a guerrilha a partir da eliminaçao de seus líderes, os guerrilheiros, "sem uma linha de mando de unidade", poderiam migrar para as redes de narcotráfico, tornando ainda mais difícil o controle nas fronteiras.

"No entanto, se optar pela saída política e estabelecer mecanismos de desmobilização dos grupos armados com uma alternativa digna, o impacto para os vizinhos será menor, e o Brasil poderá ser um dos grandes beneficiados", afirmou Romero.

O debate sobre a necessidade de reforçar a segurança nas fronteiras da América do Sul, em especial com a Colômbia, ganhou força depois do bombardeio realizado pelo Exército colombiano a um acampamento do grupo rebelde Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) que havia sido instalado no Equador.

A invasão ocasionou a morte do número dois das Farc, Raúl Reyes, e de outras 25 pessoas, e provocou uma crise envolvendo Bogotá, Quito e Caracas.

"Grupo de amigos"
Lula chegou a Bogotá na noite desta sexta-feira. Embora o tema das Farc não esteja na pauta oficial, Lula disse na quarta-feira, por meio de seu porta-voz, que está disposto a falar sobre o assunto e a integrar um "grupo de amigos" que poderia ser criado para mediar um acordo de paz entre a guerrilha e o governo.

Há duas semanas, horas depois de ser resgatada pelo Exército colombiano, a ex-refém Ingrid Betancourt pediu a ajuda de Lula para libertar os seqüestrados ainda em poder das Farc.

No domingo, Lula participará das comemorações do dia da Independência da Colômbia, no Estado de Letícia, na fronteira com o Brasil, acompanhado de Uribe e do presidente do Peru, Alan García.

A cerimônia, que será acompanhada por uma apresentação musical, integra as manifestações que serão realizadas em todo o país para exigir a libertação de todos reféns das Farc.

Comércio
Esta é a segunda visita oficial que o presidente brasileiro realiza à Colômbia. A primeira foi em dezembro de 2005.

Além da área de Defesa, Brasil e Colômbia deverão firmar acordos para cooperação florestal, processamento de madeira, gestão ambiental urbana e projetos agropecuários.

Como é de praxe nas visitas de Lula aos países sul-americanos, o presidente está acompanhado de uma delegação de empresários brasileiros que participarão de um encontro no sábado, em uma tentativa de reaquecer o intercâmbio comercial entre os dois países.

No primeiro semestre deste ano, segundo o governo brasileiro, a balança comercial entre Brasil e Colômbia somou mais de US$ 1,4 bilhão, com saldo favorável para o Brasil de US$ 687 milhões.

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