O período desde que Pervez Musharraf assumiu o poder como chefe do Exército do Paquistão em um golpe de Estado em 1999 teve lances dramáticos. O então general Musharraf destituiu o primeiro-ministro Nawaz Sharif, prometendo trazer democracia verdadeira, o respeito à lei e à ordem e uma recuperação econômica ao Paquistão.

Os primeiros anos de seu governo também foram dominados por questões de política externa, especialmente pelas tensões com a Índia por causa da região da Caxemira.

Os atentados em solo americano no dia 11 de setembro de 2001 marcaram sua Presidência à partir de então, levando a uma mudança radical nas relações do Paquistão com o resto do mundo.O país se colocou no front da "guerra contra o terror" lançada pelo presidente americano, George W. Bush.

O general Pervez Musharraf foi considerado pelos Estados unidos o principal aliado americano na "guerra contra o terror".

Atentados suicidas
Isso fez com que Musharraf acabasse, inevitavelmente, em choque com militantes islâmicos no Paquistão, simpatizantes do Talebã e da rede extremista al-Qaeda.

Talvez a mais forte manifestação desta mudança de direção tenha ocorrido em julho de 2007, quando o presidente ordenou que suas forças de segurança invadissem a Mesquita Vermelha, que possui uma escola islâmica em Islamabad. Mais de cem pessoas morreram.

Clérigos e estudantes da mesquita foram acusados de se engajar em uma campanha cada vez mais agressiva para colocar em prática rigorosas leis islâmicas - Sharia - na capital paquistanesa.

Nas semanas que se seguiram à tomada da mesquita, aumentaram os choques entre soldados e militantes islâmicos nas regiões tribais do norte do país e os atentados a bomba suicidas - raros no Paquistão - se tornaram mais comuns.

Confronto com juízes
E os desafios à autoridade de Musharaf também vieram do Judiciário. Sua decisão de suspender o presidente da Suprema Corte, Iftikhar Mohammad Chaudhry, em março de 2007, acabou repercutindo contra ele mesmo. A iniciativa provocou enormes protestos em todo o país contra o que foi entendido como uma violação do império das leis.

Tal foi o nível de descontentamento com a decisão que o presidente foi forçado a recuar e reinstalar Chaudhry no cargo em julho.

O desejo de Musharraf de se manter à frente do Exército ao mesmo tempo em que ocupa a Presidência foi contestado nos tribunais.

Embora ele tenha sido eleito para um novo mandato como presidente por quatro assembléias provinciais e ambas as casas do Parlamento em outubro, o resultado não foi confirmado pela Suprema Corte.

Antes do pleito, os advogados do presidente haviam dito que ele deixaria sua posição no Exército assim que reeleito. A pressão para que deixasse o posto vinha aumentando consideravelmente.

No dia 3 de novembro de 2007, Musharraf declarou estado de emergência no país, removendo vários juízes da Suprema Corte e colocando em seu lugar figuras mais simpáticas a ele.

Todas as contestações à elegibilidade do presidente nas eleições de outubro foram, em seguida, rejeitadas e a Suprema Corte, já mudada, ordenou que a Comissão Eleitoral declarasse Musharraf vitorioso.

O presidente passou então o comando do Exército para um sucessor que ele mesmo escolheu no dia 28 de novembro de 2007, um dia antes o início de seu novo mandato.

Talebã
Os acontecimentos turbulentos de 2007 contrastaram com a forma plácida com que o homem rotulado como ditador por muitos no Ocidente depois do golpe de Estado, tornou-se, quase da noite para o dia, como um pivô no cenário internacional. É que Washington percebeu que precisava da cooperação do Paquistão para derrotar o Talebã.

Anteriormente, o Paquistão havia sido um dos três únicos países a reconhecerem o Talebã diplomaticamente e tinha sido acusado de ter um papel crucial no desenvolvimento do movimento islâmico.

Foi dito com freqüência que o presidente caminhava sobre uma corda bamba, buscando se equilibrar entre as exigências americanas para reprimir o extremismo no Paquistão e as apresentadas por um grupo cada vez mais ruidoso de islamistas contra os Estados Unidos.

Caxemira
Durante seu governo, pelo menos as tensões com a potência nuclear rival, a Índia, diminuiram desde que os dois países começaram conversações de paz, em meados de 2004.

As relações haviam se deteriorado depois de um ataque no Parlamento indiano em Delhi, em dezembro de 2001. A Índia culpou terroristas apoiados pelo Paquistão - uma alegação negada pelas autoridades paquistanesas.

Em 2002, os dois países pareciam à beira de uma guerra, com mais de um milhão de soldados concentrados dos dois lados da chamada Linha de Controle, que divide o disputado território da Caxemira.

As tensões com outro vizinho, o Afeganistão, também voltaram. Autoridades afegãs passaram a acusar o Paquistão de não agir o suficiente para pôr fim ao movimento de militantes al-Qaeda e Talebã que cruzavam a fronteira para o Afeganistão.

O Paquistão alega que enviou seus soldados ao Waziristão e a outras áreas tribais para caçar combatentes da al-Qaeda e do Talebã pela primeira vez na história do país.

Musharraf também se envolveu em uma outra frente contra nacionalistas na província do Baluchistão, que acusam o governo de explorar os recursos naturais da região, negligenciando o seu desenvolvimento.

O presidente teve que enfrentar uma tragédia humanitária em outubro de 2005, quando um forte terremoto atingiu a Caxemira, matando 73 mil pessoas. Três milhões ficaram desabrigadas.

Economia
A economia teve um crescimento sob o governo de Musharraf. Suas reformas econômicas renderam ao Paquistão elogios de instituições internacionais. A pobreza teve uma pequena redução.

Mas ainda há grandes questões pela frente, inclusive em relação à forma como o governo é governado. Musharraf tinha prometido, ao assumir o cargo, que daria mais poder às bases e haveria maior transparência.

Tentativas de assassinato
Nascido em Delhi, Musharraf imigrou com a família para o Paquistão depois da divisão entre Índia e o Paquistão, em 1947. Ele sobreviveu a várias tentativas de assassinato - a mais recente em dezembro de 2003.

O presidente entrou na Academia Militar em 1961 e enfrentou combates na guerra de 1965 contra a Índia.

Agora vinha enfrentando um número cada vez maior de desafios à frente do país - especialmente o aumento dos preços de alimentos e combustíveis.

A violência sectária entre muçulmanos sunitas e xiitas também continua latente.

O Paquistão vive hoje à sombra de relações cada vez mais próximas entre os Estados Unidos e a Índia e sua batalha contra militantes islâmicos.

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