Musharraf, um aliado dos Estados Unidos no barril de pólvora paquistanês

O presidente paquistanês, Pervez Musharraf, que anunciou sua renúncia nesta segunda-feira, foi um aliado-chave dos Estados Unidos na chamada guerra contra o terrorismo e fez valer durante anos seu papel de baluarte anti-islamita no sul da Ásia para sustentar seu poder.

AFP |

Com a popularidade em seus mais baixos níveis, Musharraf, um membro dos comandos de elite que chegou ao poder através de um golpe de Estado sem sangue em 1999, acabou cedendo às pressões de seus adversários.

A coalizão de governo formada em março por Asif Alí Zardari - viúvo da ex-primeira-ministra Benazir Bhuto, assassinada em dezembro - e pelo ex-chefe de Governo Nawaz Sharif acabou conseguindo seu objetivo de derrubar o homem que, durante nove anos, governou o país com mão-de-ferro.

Uma ironia do destino, já que o golpe de Musharraf derrubou o mesmo Sharif e o levou ao exílio, voltando apenas em 2007 ao país.

Com Napoleão e Nixon como modelos, o general Musharraf se apresentou ao mundo como o principal baluarte contra Osama Bin Laden e Al-Qaeda e, para permanecer no poder agora, se mostrou até mesmo disposto a fazer algumas concessões, como renunciar ao uniforme militar e assinar um acordo que parecia impossível com a ex-primeira-ministra Benazir Bhutto, então no exílio.

Musharraf chegou ao poder em 12 de outubro de 1999 sem disparar um só tiro, mas sua grande oportunidade política aconteceu em setembro de 2001, após os atentados terroristas nos Estados Unidos.

O general entendeu rapidamente que podia se beneficiar da "compreensão" dos Estados Unidos em sua "guerra contra o terrorismo", um lema que também abraçou.

De Napoleão Bonaparte dizia gostar do estilo direto e sem concessões à diplomacia, enquanto do americano Richard Nixon destacava o instinto e capacidade de adaptação às circunstâncias.

Musharraf não hesitava em se apresentar como o salvador da nação paquistanesa, assim como o primeiro combatente na frente de batalha contra Bin Laden.

Para esta última atribuição era preciso levar em consideração que, para Washington, a Al-Qaeda reconstuiu suas forças nas zonas tribais do noroeste do Paquistão.

Seus inimigos afirmam, no entanto, que Musharraf sucumbiu há muito tempo a uma patologia bem conhecida dos ditadores: o sentimento de sentir-se indispensável para o país.

Certamente, Musharraf podia se vangloriar de ter sobrevivido a duas tentativas de atentado por parte da Al-Qaeda.

"Considero-me um homem com sorte. Napoleão disse que além de todas as qualidades necessárias, um líder deve ter sorte se pretende ter êxito. Assim suponho que devo ter êxito", escreveu uma vez em seu site.

Como bom militar, Musharraf dizia amar seu uniforme, mas garantiu que, se fosse reeleito, seria apenas um civil, e assim o fez, abandonando o comando do Estado-Maior.

Musharraf foi condecorado durante a guerra contra a Índia em 1965 e a partir deste ano integrou uma unidade de elite.

Sua ascensão política começou no dia 7 de outubro de 1998, quando o primeiro-ministro Nawaz Sharif o nomeou chefe do Estado-Maior.

Em 1999, durante um novo confronto com a Índia, no território de Kargil, na Caxemira indiana, Sharif ordenou a retirada do Exército sob pressão de Washington e acusou Musharraf.

O premier tentou derrubar Musharraf, mas o general tinha o apoio dos militares, que o ajudaram a tomar o poder.

Musharraf prometeu restaurar a democracia depois de erradicar a corrupção. Porém, após um referendo em 2002, permaneceu no cargo, sem abandonar o uniforme.

Condenado em 1999 pela comunidade internacional, Musharraf se tornou um protegido de Washington após os atentados de 11 de setembro de 2001.

Em novembro de 2007 decretou estado de emergência alegando a necessidade de frear a onda de atentados islamita e de se opor às "ingerências" da Suprema Corte, com a qual manteve várias disputas, como o questionamento da legalidade de sua reeleição via parlamento de 6 de outubro de 2007.

Essas tensões aconteciam num contexto de protestos populares nesta potência nuclear que viveu a metade de seus 61 anos de independência sob governo de militares golpistas e a outra dirigidos por governos civis submetidos à toda-poderosa influência do exército.

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