Musharraf renuncia à presidência do Paquistão e pede que povo o julgue

Igor G. Barbero Islamabad, 18 ago (EFE).

EFE |

- Perseguido pelas forças governamentais, Pervez Musharraf apresentou hoje sua renúncia à presidência do Paquistão e, após defender seu legado, pediu que o povo o julgue.

Em discurso na televisão, Musharraf disse atuar "pelo bem da nação" ao evitar a "instabilidade" que representa o processo de destituição que as forças governamentais abriram contra ele.

O presidente classificou de "falsas" as acusações de violação da Constituição feitas contra ele e acusou os membros do Governo de estarem "enganando" a nação e atuando por interesses pessoais.

Após afirmar que aqueles que o acusam não poderiam provar "nenhuma das acusações" contra ele, também constatou que superar o processo de impugnação no Parlamento não serviria para devolver a estabilidade ao país.

"Ganhe ou perca o impeachment, em todo caso a nação será derrotada, a dignidade do país sofrerá", lamentou Musharraf, que advertiu que "o Exército poderia ter sido envolvido" e este não era seu desejo.

Musharraf assumiu o poder em 12 de outubro de 1999 em um golpe de Estado pacífico contra o Governo de Nawaz Sharif, que hoje é um dos membros do Executivo.

O presidente questionou se a coalizão governamental se movimentou guiada pelo "temor" de que pudesse usar suas prerrogativas constitucionais, que lhe permitem dissolver o Parlamento, ou para "ocultar seus erros passados e presentes".

Antes de renunciar, Musharraf defendeu sua atuação tanto no terreno político quanto no econômico em seus quase nove anos no poder, e lembrou da oferta de "reconciliação" que fez tanto a Sharif como à opositora Benazir Bhutto, o que permitiu seu retorno do exílio no ano passado.

Entretanto, "algumas forças políticas escolheram o confronto em lugar da reconciliação", criticou, para acrescentar que com a renúncia pretende "tirar o país da crise" em que está imerso.

Musharraf manteve um tom orgulhoso durante o discurso, que pronunciou com gesto severo e evidente amargura.

"Deixo o destino desta nação nas mãos do povo. Que eles (os paquistaneses) sejam os juízes e façam Justiça", declarou ao final, e concluiu: "que Alá proteja este país das conspirações".

Para o lugar de Musharraf assume o poder o presidente do Senado, Mohammedmian Soomro, que tomou posse hoje, informou à Agência Efe uma fonte da câmara.

Soomro ocupará o cargo de forma interina até a realização de novas eleições, algo que a Constituição prevê que sejam realizadas em um prazo de um a dois meses.

Após o anúncio de Musharraf, as forças políticas que promoveram sua destituição declararam a "vitória" do povo.

O Exército, que Musharraf comandou durante quase dez anos até novembro passado, não se pronunciou.

"Deixamos bem claro que estamos à margem do desenvolvimento político. Observamos, mas não interferimos", disse à Efe o porta-voz militar Murad Khan, que acrescentou que as tropas "seguirão mostrando seu apoio ao Executivo".

O ministro de Assuntos Exteriores, Shah Mehmood Qureshi, garantiu que a manifestação de Musharraf trará "estabilidade política" ao país, e acrescentou em declarações à emissora "Dawn TV" que será a história que julgará as ações do presidente, pois o eleitorado já fez sua parte ao deixar de apoiá-lo em fevereiro.

O Partido Popular do Paquistão (PPP), que hoje lidera o Executivo, classificou a renúncia de Musharraf de "vitória do povo", que conseguiu "se livrar da ditadura", disse à Efe um porta-voz da instituição.

Musharraf "conspirou durante os últimos meses contra um Governo civil", assegurou o porta-voz, que disse que os líderes da coalizão governamental "decidirão hoje o que fazer a respeito de sua má gestão política".

O líder do PPP e viúvo de Benazir Bhutto, Asif Zardari, e Sharif se reuniram hoje em Islamabad para decidirem se mantêm a folha de acusações contra Musharraf, que esta semana devem apresentar ao Parlamento.

Um porta-voz do partido Liga-N, de Sharif, Ahsan Iqbal, disse à imprensa paquistanesa que seu partido é contrário à concessão de "imunidade" ao presidente apesar de este ter renunciado.

"Musharraf quebrou a Constituição e deve pagar por isto", finalizou. EFE igb/fh/fal

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