Muro egípcio na fronteira com Gaza causa medo e preocupação

Saud Abu Ramadan. Rafah (sul de Gaza), 23 dez (EFE).- A preocupação e o temor tomaram conta do sul de Gaza trazidos pelo barulho constante das escavadeiras que levantam um muro de aço na parte egípcia da fronteira, com o objetivo de frear o contrabando.

EFE |

"Podemos ver as máquinas escavando muito fundo na terra, enquanto as forças de segurança egípcias vigiam o que acontece", conta Abu Mayed Qishta, dono de um dos vários túneis pelos quais Gaza todo tipo de produtos entram em para aliviar o bloqueio israelense à faixa.

Enquanto os moradores da fronteira palestino-egípcia se acostumaram com os ruídos das obras, Cairo segue sem confirmar a construção de uma barreira que teria dez quilômetros de comprimento e até 20 ou 30 metros de profundidade, segundo o jornal "Ha'aretz", que revelou a informação.

No sábado, o ministro egípcio de Assuntos Exteriores, Ahmed Aboul Gheit, reconheceu em entrevista ao semanário "Al-Ahram Al-Arabi" que seu país está reforçando a proteção na zona, porque "está em seu pleno direito", mas não forneceu detalhes precisos.

"Seja um muro, sensores ou aparatos de escuta, o que importa é a proteção do território egípcio", acrescentou.

Por enquanto, a construção "reduziu o negócio dos túneis nos últimos dias", diz Qishta, que não esconde seu temor pelas consequências do projeto.

"Na realidade não sabemos exatamente o que as forças de segurança egípcias estão fazendo na zona fronteiriça, mas temos certeza de que é algo que vai contra os túneis e que, certamente, danificará nosso negócio", acrescenta.

Vários donos de túneis asseguram que os militares egípcios aumentaram o controle e expropriaram grandes quantidades de bens destinados ao contrabando.

Estas centenas de dutos subterrâneos se transformaram na verdadeira porta de acesso de comida, combustível, armamento e numerosos produtos domésticos a Gaza durante os três anos de bloqueio israelense à faixa.

"Sem estes túneis, a população da faixa morrerá de fome, porque Israel mantém os cruzamentos comerciais de Gaza fechados", afirma Qishta.

Durante décadas, os túneis são a principal rota de entrada de armas para as milícias palestinas, além de drogas e outros produtos proibidos na faixa.

O Egito poderia dar agora um golpe fatal no contrabando ao substituir com um robusto muro a precária barreira fronteiriça derrubada há quase dois anos pelos palestinos.

A construção do muro - que completaria o cerco junto com a barreira israelense em sua fronteira com Gaza e a vigilância do espaço marítimo da faixa por navios de guerra israelenses - já originou tiroteios isolados do lado palestino da fronteira, que não causaram vítimas, mas sim alarme.

"Podemos ouvir facilmente os disparos de vez em quando", relata Mohammed, que mora em Rafah.

No sábado, o movimento radical islâmico Hamas criticou duramente a construção do muro, mas se desvinculou totalmente dos ataques, efetuados por milicianos.

"Nossos laços com o Egito são muito bons e estão baseados na irmandade e no apreço. Nunca participaríamos deste tipo de ações", disse um de seus porta-vozes, Ayman Taha, em comunicado.

Já outro porta-voz do Hamas, Fawzi Barhum, assegurou que a barreira está sendo construída com financiamento e supervisão de Washington "para estrangular os um milhão e meio de palestinos que vivem em Gaza".

A medida, segundo ele, busca encobrir o fracasso de Israel e dos Estados Unidos para impor um controle internacional às fronteiras da faixa após a ofensiva militar israelense de quase um ano atrás, que matou 1.400 palestinos, na maioria civis.

Nestas circunstâncias, Abu Mahmoud, outro proprietário de um dos túneis a oeste de Rafah, pediu diretamente a seus funcionários que deixem de trabalhar nos dutos.

"O que me preocupa é que os egípcios destruam meu túnel com as escavações", admite e conclui: "Parece que desta vez colocarão fim no contrabando". EFE sar-ap/pd

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