Murdoch desiste de comprar operadora de TV a cabo britânica

Pressionada, News Corporation retira oferta pela BSkyB após escândalo de escutas ilegais do News of the World

iG São Paulo |

A empresa News Corporation , do magnata australiano Rupert Murdoch, retirou nesta quarta-feira sua oferta de compra da operadora de TV a cabo britânica BSkyB . Murdoch era pressionado a desistir do negócio por causa do escândalo de escutas ilegais envolvendo o tabloide News of the World, que deixou de circular no domingo e era parte da News International, braço britânico da News Corp.

"Acreditamos que a aquisição da BSkyB pela News Corporation beneficiaria as duas companhias, mas está claro que será difícil progredir nesse clima", afirmou o presidente do grupo, Chase Carey, em nota. A News Corp. já detém 39% das ações da BSkyB, mas tinha o objetivo de obter o controle total da operadora.

AFP
Protesto em Londres mostra Murdoch dizendo "eu sou dono desse país"; ao lado, Cameron e o ministro da Cultura, Jeremy Hunt, são representados como marionetes

Os planos da empresa já eram criticados antes do escândalo dos grampos. Murdoch passaria a deter 40% do mercado de mídia britânico, o que para muitos dava a ele um poder excessivo. Além dos 39% da BSkyB, o empresário, australiano de nascimento e com cidadania americana, também é dono do jornal de maior tiragem no país, o The Sun, além do tradicional The Times.

A decisão foi anunciada pouco depois de o primeiro-ministro da Grã-Bretanha, David Cameron, ter feito um apelo para que o magnata australiano desistisse do negócio, e pouco antes de o Parlamento britânico colocar em votação uma moção para tentar cancelar a proposta da News Corp.

Depois da retirada da oferta do grupo de Murdoch, o porta-voz do premiê britânico disse que ele "recebeu a notícia com satisfação". A News Corp. e sua filial britânica News International "devem se concentrar em fazer uma limpeza e organizar seus próprios assuntos", acrescentou o porta-voz.

Na quarta-feira, o governo britânico disse que apoiaria a moção da oposição trabalhista. Como o governo britânico é formado por uma coalizão entre o Partido Conservador e o Liberal Democrata, as três principais forças políticas estavam unidas contra a News Corp.

Por sua vez, o líder da oposição trabalhista, Ed Miliband, afirmou que a retirada da oferta era uma "vitória para as pessoas que em todo o país estavam horrorizadas com as revelações do escândalo das escutas e com o fato da News International não assumir a responsabilidade".

Cameron sob pressão

Cameron pediu o fim da negociação durante uma sessão no Parlamento britânico, na qual foi pressionado por parlamentares da oposição e buscou se distanciar da empresa de Murdoch. Durante a sessão no Parlamento, Miliband cobrou de Cameron explicações sobre sua relação com o ex-porta-voz Andy Coulson , que foi editor do News of the World.

Cameron defendeu sua decisão de contratar Coulson e disse que ele garantiu não ter tido nenhum envolvimento com o escândalo dos grampos, que começou a ser investigado em 2006. “Se ele mentiu para mim, se mentiu para a polícia, se mentiu para a comissão (que investiga o caso), então isso seria motivo para grande lamentação e para um processo criminal”, afirmou o premiê.

Cameron disse que "o que aconteceu (com essa empresa) foi uma desgraça". "Devemos ser claros sobre o que está acontecendo. Há um incêndio que atinge partes da mídia, da polícia e a capacidade do nosso sistema político de reagir. O que precisamos fazer nos próximos dias e semanas é pensar, acima de tudo, nas vítimas e nos certificar de que processaremos os culpados."

Cameron deu detalhes de como deve ocorrer o inquérito independente sobre as denúncias de obtenção ilegal de informações por parte de jornais da News Corporation. Donos de jornais, jornalistas, policiais e políticos podem ser chamados para prestar esclarecimentos perante a comissão que investiga as denúncias.

A investigação em duas etapas deve começar "o mais rápido possível" e ser dividida em duas partes: um inquérito sobre atitudes erradas que tenham sido tomadas pela imprensa e polícia e uma revisão dos regulamentos da imprensa. Cameron nomeou o juiz Leveson que, auxiliado por um painel independente de nomes, fará recomendações para melhorar as regulamentações de imprensa .

O juiz também fará recomendações sobre como devem ocorrer as futuras relações entre políticos e a imprensa, com funcionários da administração registrando seus encontros com editores-chefes de jornais e executivos de mídia para tornar o governo britânico “um dos mais transparente do mundo”.

A investigação examinará a cultura, as práticas e a ética da imprensa, assim como seu relacionamento com a polícia; as falhas das regras atuais; como ocorrem os contatos entre políticos e jornais nacionais; o porquê de alertas anteriores sobre erros de conduta da imprensa não terem sido ouvidos e o tema de veículos diferentes de mídia pertencerem ao mesmo dono.

Durante a sessão de perguntas, o líder da oposição trabalhista disse que o fato de a editora-executiva da News International, Rebekah Brooks , ainda estar no cargo é um insulto para a família de Milly Downer , jovem assassinada que teria tido seu telefone grampeado pelo tabloide.

Cameron respondeu que o pedido de renúncia de Brooks deveria ter sido aceito. “Toda a organização precisa de uma mudança profunda”, afirmou.

Em sua visita ao Parlamento, Cameron prometeu investigar se vítimas dos ataques do 11 de Setembro foram alvos de escutas ilegais, conforme denúncia do jornal The Daily Mirror.

EUA

O escândalo dos grampos também ganha ampla repercussão nos Estados Unidos, onde a News Corp. é dona de grande número de meios de comunicação, como a emissora FOX e os jornais The New York Post e The Wall Street Journal.

Na terça-feira, o senador democrata Jay Rockefeller pediu uma investigação para saber se o grupo realizou escutas ou outras atividades ilegais nos EUA. Em comunicado, Rockefeller disse que os grampos "podem ter se estendido a vítimas dos atentados de 2001 e a outros americanos".

Rockefeller preside o Comitê de Comércio, Ciência e Transporte do Senado dos EUA, mas por enquanto não há previsão de que uma investigação sobre o caso seja aberta.

Com AP, BBC e EFE

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